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O caso Lionel Messi: dúvidas obscurecem jogos beneficentes

Partidas organizadas por Fundação do argentino passam por investigação

Rafael Buschmann e Michael Wulzinger, da Der Spiegel, Der Spiegel

08 Março 2015 | 16h13

Os que quiseram ver Lionel Messi jogar no Soldier Field de Chicago em 6 de julho de 2013 tiveram de desembolsar um preço salgado pelo prazer. O ingresso mais barato custou US$ 55 em vendas antecipadas, e o mais caro chegou a US$ 2.500. Com o preço VIP veio, porém, a oportunidade de ganhar uma camisa autografada pelo jogador argentino quatro vezes premiado pela Fifa como o melhor do mundo e também um das bolas que ele estaria distribuindo.

O espetáculo, "Battle of the Stars" - Messi and Friends vs The Rest of the World, contou com a entrada em campo de ídolos como Javier Macherano do FC Barcelona, o goleiro da seleção brasileira Julio César e o ex-astro da seleção francesa Thierry Henry. O próprio Messi estava em boa forma, disparando e fintando pelo campo e marcado três gols aparentemente sem esforço que levaram seu time a uma vitória por 9 a 6.

O espetáculo entreteve uma multidão de 25 mil pessoas. Além disso, os espectadores certamente se sentiram bem por estar fazendo alguma coisa benemérita. Os organizadores haviam anunciado que parte da arrecadação iria para a Leo Messi Foundation e seria usada para fins de caridade. Entre as causas apoiadas pela fundação, estavam a ajuda a crianças refugiadas sírias deslocadas para a Jordânia por causa da guerra civil e ajudar crianças no país natal de Messi, a Argentina, que sofrem de doenças incuráveis.

A partida em Chicago foi a última de uma série de partidas beneficentes que Lionel Messi organizou para sua fundação. No verão anterior, o elenco estelar do futebol havia realizado grandes eventos em Bogotá, Cancún e Miami, e, nos dias que antecederam ao jogo em Chicago, o circo itinerante de Messi fez paradas na capital peruana, Lima, e em Medellín, na Colômbia. Em cada partida, multidões se deleitaram e hinos de louvor foram cantados aos famosos benfeitores.

AJUDANDO NECESSITADOS OU FORRANDO OS BOLSOS?

Mas Messi e seus amigos não estão mais viajando pelo mundo num esforço para torná-lo um lugar um pouco melhor e mais feliz. E a razão tem a ver com uma unidade especial da força policial espanhola, a Guarda Civil. O departamento é chamado de Unidade Central de Operações (UCO) e se concentra em lavagem de dinheiro e crime organizado. Durante mais de um ano, ela esteve investigando para onde foram os milhões de dólares que Messi e sua fundação levantaram com eventos de caridade. Teriam eles sido realmente entregues aos necessitados ou teriam ido parar nos bolsos de jogadores, agentes e até do próprio Messi?

O superastro do FC Barcelona já tem problemas legais de sobra em suas mãos. Messi e seu pai continuam acusados de evasão fiscal desde junho de 2013 e poderão enfrentar um julgamento este ano. As dúvidas sobre os jogos beneficentes de Messi ameaçam complicar ainda mais sua situação legal.

Testemunhas já mostraram várias inconsistências aos investigadores. Elas apresentaram formulários de transferência de dinheiro mostrando que mais de US$ 1 milhão gerados pelos jogos Friend of Messi foram transferidos telegraficamente para uma conta bancária no Caribe. E há documentos que suscitam dúvidas sobre se todas as testemunhas interrogadas pela Guarda Civil foram inteiramente honestas, incluindo Messi.

A figura central do escândalo é o promotor de eventos esportivos Guillermo Marín, de Buenos Aires. Um bom amigo do pai de Messi, Jorge, o empresário vem sendo uma figura importante nos negócios esportivos sul-americanos há 20 anos. Nem todos suas empreitadas lucrativas foram particularmente sérias. O evento provavelmente mais exótico organizado por Marín até agora foi uma corrida disputada, em dezembro de 2013, entre o campeão mundial dos 100 metros rasos Usain Bolt e um ônibus urbano no centro de Buenos Aires. Bolt venceu.

Marín adquiriu os direitos de marketing dos seis jogos da Leo Messi Foundation em 2012 e 2013 na América do Sul e Estados Unidos, que ele então vendeu a promotores locais. Na Colômbia, por exemplo, transferiu os direitos comerciais para os dois jogos à Total Conciertos, uma empresa de Bogotá. Uma testemunha disse a investigadores da UCO que a Total Conciertos pagou US$ 4 milhões a Marín pelos direitos aos dois jogos, disputados em Bogotá e Medellín. O homem se referiu jocosamente aos 4 milhões ("cuatro millones") como quatro melões ("cuatro mellones"). As testemunhas alegam que Marín usou o dinheiro para pagar os jogadores, incluindo Messi.

É fato incontestável que US$ 1,3 milhão dos dois jogos na Colômbia foram parar uma conta do First Caribbean International Bank em Curaçau - Marín confirmou isso em seu próprio depoimento, O formulário de transferência inclui a referência escrita à mão a "G.Marín-Messi". Investigadores da UCO interrogaram Marín no começo de junho passado. Ele admitiu que tem acesso à conta em Curaçau por intermédio de uma companhia com sede no Uruguai. Alegou também que US$ 50 mil por cada jogo e um total de US$ 300 mil foram para a fundação de Messi e que nada foi enviado pessoalmente a Messi. Marín não respondeu aos investigadores sobre o que houve com o resto do dinheiro. Ele calculou para eles, contudo, que as seis partidas disputadas por Messi and Friends geraram receitas pouco abaixo de US$ 7,9 milhões.

O próprio Messi foi inquirido como testemunha no final de 2013 pela Guarda Civil em Barcelona. O jogador declarou que a arrecadação de seus jogos fora doada para sua fundação e causas humanitárias. Disse que não havia recebido nenhum dinheiro. Seus colegas de time José Manuel Pinto, Javier Mascherano e Dani Alves do Barcelona, que participaram nos jogos beneficentes, também negaram ter recebido algum pagamento. Eles disseram que tinham rejeitado o pagamento em razão de sua amizade com Messi e que as únicas despesas pelas quais foram reembolsados foram os custos dos voos e hotéis. Será verdade?

OFERTA LEVANTA SUSPEITAS

Spiegel obteve documentos da América do Sul que lançaram sérias dúvidas sobre este retrato dos fatos. Eles se originam da Imagen Deportiva, uma empresa baseada em Buenos Aires que pertence a Guillermo Marín. O atacante Robert Lewandoswski do Bayern Munich, que jogava no Borussia Dortmund na época, também foi identificado como um possível membro do time de Messi. Em 15 de março de 2013, Imagen Deportiva enviou um e-mail com perguntas ao empresário de Lewandowski na Alemanha.

A Imagen Deportiva, dizia o e-mail, é "responsável por organizar os jogos de Lionel Messi sob a marca ´Messi & Friends`". Lewandowski foi convidado a jogar uma partida beneficente em Los Angeles, que mais tarde foi cancelada, e a mais recente em Chicago. Para tornar a oferta mais atraente a Lewandowski, que também joga na seleção nacional polonesa, o e-mail listou outros jogadores famosos que Imagen Deportiva estaria tentando recrutar para a viagem aos EUA entre os quais Sergio Agüero, Didier Drogba, Zlatan Ibrahimovic, Cesc Fàbregas e Antonio Cassano.

"Nosso pacote de oferta", dizia o e-mail, "consiste principalmente de duas passagens classe executiva por jogador, acomodação em hotéis cinco estrelas e uma quantia de dinheiro à guisa de compensação". Um outro e-mail enviado por Imagen Deportiva ao treinador de Lewandowski em 31 de maio de 2013 foi mais detalhado sobre o valor da compensação: US$ 30 mil. O total aparecia numa amostra de contrato escrita para os jogos "Messi & Friends vs The Rest of the World", que estava anexado ao e-mail. "O pagamento pelos dois jogos será feito por transferência de dinheiro a uma conta bancária pertencente ao jogador", o contrato observa. "Cinquenta por cento do pagamento serão feitos em 10 de junho e os 50% restantes nos 10 dias antes do jogo."

Contatado por Spiegel, o empresário de Lewandowski, Maik Barthel, confirmou que seu cliente tinha sido abordado por Imagen Deportiva com essa proposta, mas que a havia rejeitado. Os organizadores dos jogos beneficentes de Messi não desistiram facilmente. Algumas semanas antes apenas, Lewandowski havia dado um salto significativo para se tornar um astro do futebol global ao marcar quatro gols numa partida de semifinal da Liga dos Campeões da Europa contra o Real Madrid, e Imagen Deportiva queria recrutá-lo a todo custo. Os arquivos da empresa deixam claro que foi enviado ao empresário de Lewandowski outro e-mail em 10 de junho de 2013, pedindo-lhe que o contrato assinado fosse enviado de volta o quanto antes. "Faça-me este favor!"

Barthel confirmou que recebeu este mail também. Nos dias que precederam o e-mail de 10 de junho, ele lembra, representantes de Imagen Deportiva telefonaram repetidamente para ele, às vezes usando um intérprete, e a cada vez aumentavam a quantia de dinheiro que ela estava disposta a oferecer a Lewandowski.

Primeiro, a oferta foi elevada a US$ 90 mil. Depois a US$ 110 mil. Depois a US$ 250 mil. Por fim, disse Barthel, ele parou de atender ao telefone quando aparecia um número de telefone celular argentino na sua tela.

FOI OFERECIDO DINHEIRO AOS OUTROS ASTROS?

A oferta feita a Lewandowski de um quarto de milhão de dólares para participar de dois jogos beneficentes suscita questões sobre o que pode ter sido oferecido aos outros astros. Aliás, a UCO está investigando por suspeita de fraude, lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Os investigadores também pretendem viajar a Curaçau para descobrir quem está por trás da malfadada conta no First Caribbean International Bank para a qual foi transferido US$ 1,3 milhão após os jogos dos amigos de Messi na Colômbia.

Marín não contou aos investigadores durante sua última audiência em junho. O promotor de eventos de Buenos Aires deve ser chamado a depor como testemunha em meados de março. Será realmente possível, porém, que Lionel Messi seja tão cínico que os jogos de caridade que ele permitiu que fossem organizados em seu nome não passem de uma cobertura para uma fraude em larga escala? Afinal, ele é um dos atletas mais bem pagos do mundo, com uma renda anual em torno de  40 milhões (US$ 44 milhões).

Por enquanto, nenhum suspeito foi nomeado no caso. E o próprio Messi tem permanecido em silêncio. Na semana retrasada, Spiegel enviou várias perguntas referentes à investigação da UCO ao advogado de Messi, Enrique Bacigalupo, um ex-juiz da Suprema Corte espanhola. Bacigalupo só respondeu na última quinta-feira, pouco antes de a revistar ir para o prelo; mas deixou as perguntas sem resposta. Ele não forneceu tampouco respostas a um e-mail enviado na terça-feira no qual Spiegel pedia uma declaração de Messi sobre as propostas financeiras feitas por Imagen Deportiva a Robert Lewandowski por sua participação nas duas partidas beneficentes nos EUA. Quando perguntado por Spiegel, o promotor de eventos esportivos argentino Marín também não quis comentar sobre a investigação da UCO ou a oferta de sua empresa a Lewandowski.

O jogador da seleção nacional polonesa não viajou aos Estados Unidos para os jogos de Messi e Amigos. "A abordagem e a oferta me pareceram estranhas", diz o empresário de Lewandowski, Barthel. "Não quisemos participar desse modelo de negócio."

Tradução de Celso Paciornik*

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