O craque e os apagões

Ver Diego Souza jogar é um privilégio ocasional; ele é um jogador que exige paciência

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 03h00

O nome é de diplomata ou professor universitário: Diego Souza Andrade. A profissão, todo mundo que acompanha futebol sabe, é jogador. A posição em campo é uma outra história. Numa biografia cheia de polêmicas, a posição é apenas uma delas. Como muitos craques um pouco perdidos pelas alterações sofridas pelo futebol nos últimos anos, talvez nem ele mesmo saiba em qual das posições se sente melhor e rende mais. 

Parece ser um meio-campista autêntico, mas pode também jogar mais à frente, às vezes muito à frente, se transformando não raro em artilheiro. Nessas dúvidas de posicionamento, incluo seus próprios treinadores ao longo da carreira, que o aproveitam ora aqui ora ali, todo mundo em busca de uma posição definitiva. O fato é que simplesmente talvez não exista essa posição definitiva. Pode ser que sua posição certa sejam todas, do meio de campo para a frente.

Vê-lo jogar é um privilégio ocasional. De vez em quando produz uma partida absolutamente impecável, genial, o suficiente para manter ou mesmo elevar sua reputação. O diabo é que não se sabe quando essa jornada particularmente favorável vai se repetir. É um jogador que exige uma paciência que torcedores não têm. 

Já vi grandes jogadores ocasionais e sempre me intrigaram. Desisti de tentar desvendar as causas de seus mistérios, nunca há uma explicação inteiramente lógica.

No caso de Diego Souza, já com 31 anos, não há mais o que especular. Às vezes penso que o problema seja exatamente as raras, belíssimas, jogadas que produz de vez em quando. Ao chegar num novo time não chega apenas o jogador, mas, junto, a memória de jogadas inesquecíveis que os novos torcedores esperam ver repetidas. 

É possível que seja esse excesso de esperança na chegada que provoca a ira das torcidas quando começa a decair. Foi assim no Fluminense, no Palmeiras, no Atlético, no Vasco, no Cruzeiro. Passou por técnicos importantes, que percebiam nele o craque, mas no fim todos tiveram que se render aos fatos. Foi acusado de tudo, por todos os enfurecidos torcedores por onde jogou, as acusações indo de pipoqueiro a apático, que tira o corpo e se esconde nas horas decisivas. Só não foi nunca acusado de ruim de bola. Essa acusação é impossível. Nos mesmos times onde foi quase agredido, deixou sempre sua marca na forma de um punhado de lances inesquecíveis.

A mesma Mancha Verde que o hostilizou particularmente, teve que vibrar e enlouquecer quando ele marcou provavelmente o mais belo gol jamais feito no antigo Parque Antártica, numa vitória por 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro, em novembro de 2009. E olha que, se existiu um estádio que viu belos gols, foi o Parque Antártica.

O mesmo se repetiu em todos os outros clubes. Há também o problema da disciplina e da facilidade em ser expulso, característica que divide com muitos outros grandes jogadores, e que, por isso, não explica uma carreira tão cheia de altos e baixos. O segredo reside em outro lugar que, creio, jamais será descoberto. 

De minha parte procuro sempre vê-lo, pois pode me surpreender e para mim futebol é isso: surpresa. Diego Souza é como quando alguém entra no cinema e se arrisca ver um filme do qual não sabe nada, só pelo ator, que no filme pode estar fantástico ou péssimo. Mas vale comprar o ingresso.

Contando com todas as possibilidades, vi Sport x São Paulo, quarta-feira. Belo e corrido jogo. E ele estava numa de suas noites. O Sport não venceu, mas Diego fez um gol belíssimo, típico dele, que não se vê a toda hora, deu passes, deixou gente na cara do gol, correu, armou e atacou. Esteve em todo e qualquer lugar do campo sem se enquadrar, como sempre, em qualquer posição identificável. Simplesmente jogou, numa noite em que estava com vontade de jogar. Foi bom vê-lo, matar as saudades, e me perguntar mais uma vez qual o segredo do seu futebol.

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