O craque que eu perdi

Ao rever alguns lances de Dagoberto, surgiu diante de mim um grande craque, muito maior do que eu lembrava

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 04h00

Futebol não é uma caixa de surpresas, mas é quase. Distraidamente assistia outro dia um programa de TV que costuma reunir craques do passado. Estava entre eles Dagoberto, ex-jogador do Atlético-PR, São Paulo, Inter, Cruzeiro... e que nunca esteve numa Copa. Claro que conhecia Dagoberto. Era até fã do seu futebol refinado, mas um fã a uma prudente distância, já que sempre jogou em times pelos quais não torço. Minha lembrança era de um craque entre muitos.

Até que no meio do programa, reviveram alguns lances do Dagoberto. E de repente surgiu diante de mim um grande craque, muito maior do que eu lembrava. Quase aplaudi um gol que aconteceu há vários anos, uma obra prima que fez com a camisa do São Paulo contra o Inter no Morumbi.

O locutor da época que acompanhava o Dagoberto da época e, portanto, sabia de sua qualidade, ainda com o lance em andamento, vendo que agora o meia só tinha diante de si o goleiro, grita: “Dagoberto vai fazer gol de placa”, desses que a gente vê em Mundiais também, já com a certeza de que isso não poderia deixar de acontecer. E Dagoberto termina seu trabalho dando um leve toque que tira da jogada seu último obstáculo. O goleiro fica caído e a bola mansamente na rede dá o toque final ao gol.

Corri, coisa que raramente faço, para o YouTube. E lá esta ele e uma série de outros gols. Um sensacional, contra o Palmeiras. Ele tira um zagueiro com um toque lindo e, quase sem sair do lugar, antes que Marcos pudesse se mover, emenda com outro toque que faz a bola encobrir o goleiro adiantado. Havia mais gols de todas as maneiras, até de cabeça – feito notável para um jogador franzino e de baixa estatura.

O que quero dizer é que poucos dias atrás, encontrei um craque que tinha perdido. Um craque cuja carreira está hoje terminada, mas que tinha transcorrido por anos diante dos meus olhos e que inexplicavelmente tinha enterrado na memória. E não se pode dizer que estou falando de um passado remoto, ou de um atleta que ninguém mais conhece. É coisa de anos atrás. Talvez a mediocridade que vejo tenha como uma de suas consequências varrido da minha memória um futebol que se praticava no País até recentemente. Quem duvidar que vá ao YouTube e procure pelo Dagoberto.

O que vai ver é, além dos gols, atletas que formavam o São Paulo daqueles dias, como Lucas e Hernanes, que faz chorar qualquer torcedor do time de hoje. Vai ver um Morumbi lotado, mas confiante na vitória. Sente-se o prazer do torcedor de estar ali. Hoje, o Morumbi pode estar lotado, mas há no ar não alegria, mas apreensão. Essa atitude não é só do São Paulo. Qual o torcedor que acredita no seu time e tem certeza de que fará uma exibição digna? Acho que nenhum. Para voltar ao Dagoberto, fico perplexo ao pensar que um jogador daquela qualidade jamais jogou fora, jamais jogou uma Copa. É que até poucos anos atrás a gente achava que lugar de craque desses era aqui mesmo.

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