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O Cruzeiro lutando

Felipão deu um atestado de amor ao futebol e ajuda o time mineiro a caminhar na série B

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

12 de dezembro de 2020 | 22h00

O Cruzeiro começou a Série B só com a camisa. Era o que restava do grande Cruzeiro, a camisa poderosa cheio de títulos e simbolismos. Apenas ela. Alguns jogadores remanescentes do time que desceu estavam por lá a ajudar a lembrança de uma grande equipe que não caiu, despencou. A queda do Cruzeiro, se lembro bem, não foi resultado no campo de uma decadência lenta e visível, construída passo a passo, como de outros vários clubes que caíram. Na verdade, o Cruzeiro pouco tempo antes da queda era campeão da Copa do Brasil com uma equipe poderosa e falava-se mesmo candidato a mais títulos no ano.

Decadência lenta e visível o clube só experimentou na Série B quando caminhava decidido rumo à Série C, que seria mesmo o fundo do poço. Mas todos sabem que o fundo do poço nunca se atinge e o Cruzeiro começou a reagir. Quem dirige o clube atualmente deve ter compreendido que contava com pouco. Além da camisa, havia Fábio, o goleiro de tantas conquistas.

É impressionante como essa posição traz com ela muitas vezes uma grandeza moral que as outras posições não tem. Não que valham menos que o goleiro, mas não tem a mística. Essa posição solitária é como o símbolo de uma última resistência, a derradeira defesa contra a vergonha e a humilhação. Nos piores momentos os grandes clubes se voltam para seus goleiros como para reservas técnicas especiais. Foi assim com o grande Marcos no Palmeiras, com Jefferson no Botafogo, certamente assim com Fábio.

É sempre confortador ver no gol o herói de tantas conquistas. Um herói de 40 anos de idade que ficou para mostrar aos mais jovens, ostensivamente, a grandeza do Cruzeiro. Claro que só camisa e Fábio não eram suficientes. Cheguei a ver o Cruzeiro jogando uma ou duas partidas nessa temporada e realmente me pareceu que a Série C era mais que uma possibilidade. Alguém então deve ter tido a ideia brilhante de fazer o time o mais parecido possível consigo mesmo, isto é, que se sentisse psicologicamente como um time grande de série A. Uma única contratação para resolver um único problema. Foi assim que contrataram Felipão.

Sim, Felipão tantas vezes vencedor no Brasil e no exterior, campeão mundial com a seleção e que naquele momento estava sem clube, como a maioria dos treinadores brasileiros da sua idade. Como conseguiram atrair um treinador tão vencedor para disputar a Série B, não sei. Mas o fato é que um dia dei com ele ali ao lado do campo, com os mesmos gestos, as mesmas caretas, o velho Felipão agora vestindo azul. Ele e alguns antigos, Fábio e Manoel e outro grande veterano, Rafael Sóbis.

Simbolicamente, estava feita a mágica na imaginação dos torcedores, e da imprensa que, como eu, reagiu com surpresa, à contratação de Felipão. Mas o fato é que ao ver esse Cruzeiro vi um time da Série A em campo. A aparência muitas vezes não engana. O Cruzeiro estava tentando impor-se com a aparência, como que a lembrar, já antes da partida, que o adversário estava lidando com um grande do futebol brasileiro. Não seria uma tarefa fácil, era apenas um bom começo. Aos poucos, acho que está dando certo. E essa conduta de parecer grande, talvez tenha exercido maior efeito sobre os próprios jogadores do time. Sobretudo a contratação de Felipão, um treinador lendário, deve ter aguçado a confiança do elenco.

Pouco a pouco o Cruzeiro caminha. Não está mais entre os últimos, mas ainda não está fora de perigo e se aproxima apenas de uma posição intermediária. Mas já é um ganho enorme. Chama a atenção ainda a atitude desse personagem extremamente representativo do futebol brasileiro que é Luiz Felipe Scolari. Poucos teriam a coragem de enfrentar a tarefa. Muitos, para não dizer a maioria, no seu lugar a teriam recusado. Ele aceitou. E deu um atestado de amor ao futebol.

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