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O dérbi continua

Corinthians e Palmeiras é diferente, como mostram as polêmicas desde quarta-feira

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2017 | 03h00

O carnaval chegou, já teve rodada no sábado, mas o clássico entre Corinthians e Palmeiras continua desde a noite de quarta-feira. Nos desdobramentos para as duas equipes, técnicos, arbitragem, humor das respectivas torcidas. E por proporcionar algumas reflexões – sobre esporte, vida e ética.

Por algumas horas, Thiago Duarte Peixoto transformou-se no maior vilão do Brasil, superou até figuras notórias da vigarice nacional, frequentador assíduo de noticiário político e policial. O árbitro se expôs à execração pública ao cometer o crime de falhar de forma grotesca ao trocar Gabriel por Maicon, após uma falta no palmeirense Keno. Como Gabriel tinha recebido anteriormente cartão amarelo, tomou o vermelho, para revolta alvinegra muito justificada.

A vitória da rapaziada de Fábio Carille caiu do céu e evitou, quem sabe?, tragédia em Itaquera. Duarte Peixoto teve a humildade, após o jogo, de reconhecer a mancada, pediu desculpas, chorou e foi embora. No dia seguinte, levou gancho da FPF, como era previsto. Tomara tenha chance de reagir, não pode ser condenado ao limbo boleiro.

O episódio desencadeou uma série de atitudes equivocadas. A primeira veio do próprio Duarte Peixoto, que ignorou os gritos de alerta do quarto árbitro, a avisar-lhe que Gabriel não estava na jogada fatal. O apitador sustentou postura autossuficiente, não deu bola para os corintianos e afundou o pé na lama. Com gosto e convicção.

Na confusão, a tropa do Palmeiras comportou-se como qualquer outra em caso semelhante: alguns jogadores fingiram não ter visto nada, outros ficaram observar no que ia dar o rolo; houve quem botasse lenha na fogueira, casos de Keno, a apontar para Gabriel, e do capitão Dudu, a pressionar o árbitro. Enfim, nada diferente do que se nota em situações delicadas em campo, durante jogo tenso e equilibrado. Corintianos fariam o mesmo... 

Faltou ali voz dissidente, impregnada de sinceridade, bom senso e simpatia para ajudar o juiz. Voz que deveria vir do Palmeiras, parte interessada e com credibilidade, se optasse por tal discurso. Você, leitor amigo, dirá que é utopia, moralismo, carolice. Entendo, mas não concordo. No entanto, imagine que gesto de grandeza, cavalheirismo, surpreendente até. Valorizaria o duelo, amoleceria o público. O Palestra ficaria mais forte e confiante. Poderia perder, porém sairia sob aplausos.

Vou além nessa viagem: profissionais da bola dariam exemplo de conduta para o País. Num momento em que se discute tanto a necessidade de honestidade nos pequenos gestos do cotidiano, fariam gol de placa. Em vez disso, prevaleceram omissão, malícia. Ah, mas isso é comum no futebol, como se o Esporte fosse atividade à parte na vida e contivesse código especial de conduta. Reflete tanto nossa sociedade quanto violência entre torcidas. Detalhe: jogadores entraram irmanados, em seguida esqueceram da solidariedade e cada um se virou como pôde, até com cotovelada de Vítor Hugo. 

Depois da partida, pisadas na elegância, com Gabriel postando xingamentos contra a torcida do Palmeiras, que até outro dia ele exaltava, pois vestia verde. Tchê Tchê, machucado e fora de combate, devolveu, sugerindo que o ex-companheiro de clube era "traíra". Na sequência, afirmou que fez brincadeira. O presidente do Corinthians, que sofreu com ameaça de destituição do cargo, pediu banimento do árbitro, sem levar e conta atenuantes. 

Por tabela, respingou em Eduardo Baptista, recém-chegado ao Palestra e com estrela em baixa. Não caiu no gosto da exigente legião alviverde, ainda mais com o 1 a 0 na cacunda, com um jogador a mais e com elenco badalado e variado. E muita gente acha que Palmeiras x Corinthians é só mais um jogo... Cem anos de história provam o contrário.

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