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O desafio

Com Neymar fora de combate, é hora de Dunga mostrar capacidade como ‘professor’

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 03h00

A seleção teve de abrir mão de Neymar, por força dos quatro jogos de suspensão que tomou na sexta-feira. Em princípio, um baque e tanto, já que se priva do principal jogador, o capitão e o astro, aquele capaz de desequilibrar – desde que esteja inspirado, é claro.

Talvez o rigor do Comitê de Disciplina da Conmebol na prática não se mostre tão desastroso. Quem sabe não se converta, até, em algo satisfatório, benéfico e criativo? Está no ar a oportunidade de tirar proveito do que, em princípio, soa como entrave na caminhada na Copa América; cabe a Dunga a agilidade de agarrá-la.

O grupo ele que levou ao Chile é comum demais – mesmo o mais fanático torcedor do time da CBF reconhece. A esperança de romper a mesmice concentrava-se em Neymar. Sem ele, o Brasil corre o risco de equiparar-se a Colômbia, Chile, Uruguai, Equador. Mas, como agora é carta fora do baralho, não adianta ficar com chorumelas, como diria aquele personagem humorístico. Tem de tocar a vida no torneio.

O desafio de Dunga é encontrar alternativas eficientes para a saída de cena do solista. Chegou o momento de mostrar qualidades como professor, arquiteto, líder e gestor. O esquema, grosso modo, se resumia a bola para o Neymar e seja o que Deus quiser. De certa maneira, foi assim também com os antecessores Mano Menezes e Felipão.

Não se trata de acaso o fato de o moço ter mais de 60 jogos com a camisa amarela aos 23 anos de idade. Como concentrou em torno de si a expectativa de vitórias desde o segundo semestre de 2010, raras vezes desfalcou a trupe. Nome certo em todas as listas.

Dunga encara enigma tão estimulante quanto delicado: como construir time competitivo sem Neymar. Eis a chance de testar Robinho, veterano que esquentou banco nas rodadas iniciais. Aí se apresenta a possibilidade de Philippe Coutinho assumir papel de protagonista ou algo perto disso. Quem sabe Firmino, Willian, Fred, Tardelli, Douglas Costa se soltem e provem que não serão cometas – com aparição rápida e sumiço idem na seleção.

O acaso põe Dunga cara a cara com a ocasião ideal para expor maturidade diante da adversidade. Tanto ele quanto o elenco podem crescer e afastar a constatação não necessariamente reconfortante de que tudo gira em torno de apenas um nome. Sem lamentação, também. Tampouco atenuantes.

Não cola a conversa de que os árbitros perseguem o Brasil, de que os adversários provocam, de que a torcida vaia e tira onda, de que o frio, o gramado, o fuso horário e sei lá o que mais prejudicam. Tudo papo furado. Menos coitadismo e mais produção geral, é o que a suspensão de Neymar propõe.

A propósito da punição: numa espiada superficial, os quatro jogos de gancho parecem demasiados, severidade além da conta para o episódio. A confusão após o apito final, na derrota diante dos colombianos, não foi chocante. Neymar teve atitude sonsa, levou o troco de Bacca e, exceto pelos bate-bocas e algum empurra-empurra, a cena não descambou para pancadaria.

Neymar poderia ter amargado dois ou três jogos. No final das contas, o afastamento não é tão ruim, tem um quê de conveniente. Com a exclusão, pode dedicar-se apenas a acompanhar a defesa no processo que a justiça espanhola abriu, a pedido da DIS, antiga parceira do Santos, que se sentiu lesada na negociação que levou o craque ao Barcelona. O caso mexeu com Neymar, que em campo se mostrou irritadiço e suscetível. Bom sair dos holofotes, para poder se explicar por lá. 

QUE REFORMA!

A todo momento se diz que o Corinthians passa por “reconstrução”, uma forma delicada, e até certo ponto enganadora, para explicar o desmanche a que é submetido. As baixas e as incertezas mostraram as garras, na tarde de ontem, na derrota por 1 a 0 para o Santos. O time de Tite foi tímido, retraído, sem vibração, criatividade próxima de zero. O Santos apresentou pouca coisa a mais, porém o suficiente para vencer. Que fase de ambos...

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