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O dia do craque

Relato do dia de um jogador na varanda do apartamento durante a quarentena

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2020 | 04h00

O craque mora num edifício quase em frente ao meu. Da minha janela posso ver perfeitamente seu apartamento. De uns dias para cá, esse apartamento passou a ser uma das coisas que me interessam. Fico na espreita e vejo pela manhã o craque sair à sacada. Dá pequenos passos incertos, como se não conhecesse bem o ambiente, olha para os lados lentamente, como que para uma paisagem pouco familiar. Veste camiseta (não é a do patrocinador), bermudas e na mão segura o celular, mas quase sem se dar conta dele.

Percebi que sai sempre no momento em que o sol cai sobre uma espreguiçadeira na qual ele se estende. Fecha os olhos, parece dormir. Lentamente levanta o celular. Alguém chamou. Fica conversando, provavelmente com alguém que também está confinado, pois se altera pouco seu aspecto. Um semissorriso e umas palavras vagas de resposta, e assim fica.

Um garoto sai do apartamento e se aproxima do craque. Não sabe o que fazer. Por fim estende o punho fechado e o craque, sempre sem largar o celular, bate seu punho fechado no do menino. O garoto sai lentamente. O craque continua lá, o sol lhe queimando a cara. Acaba por tirar a camiseta e cobrir a cabeça com ela. E assim fica.

Uma mulher jovem assoma na porta que dá para a varanda um pouco atrás do craque. Fala alguma coisa com ele, que faz um sinal negativo com a cabeça coberta. A mulher sai e ele fica só. Depois de um tempo, lentamente, volta ao celular e chama alguém. Aproxima o celular da cabeça coberta e sente-se pelos movimentos da camiseta sobre rosto que fala. É estranha aquela imagem do craque de rosto coberto e celular perto do que seria a orelha. O que estará ele falando?

Uma menininha aparece pela porta da varanda, mas não chega a sair. Uma voz inaudível para mim, mas não para ela, a chama para dentro. Ela olha o pai e recua. O craque não faz mais movimento algum. Nem eu nem ele arredamos pé. Finalmente é ele quem desiste e volta para dentro.

A varanda ficou vazia. A sala é apenas um buraco negro através do qual não enxergo nada. O que se estará passando lá dentro? Será que o craque tenta manter a forma? Espaço no apartamento deve ter para que se exercite. Mas que exercício? E por quê? Quem sabe quando isso vai terminar e voltar o futebol. E que futebol? Talvez ele faça realmente algum exercício, mas sem bola?

Lembro de alguém me dizendo que quando o grande Ipojucan treinava a base da Portuguesa exigia da molecada que treinasse controle de bola com pequenas bolas de borracha do tamanho de uma bola de tênis. Estava convencido de que para controlar uma bola grande era preciso começar com as pequenas. Era o segredo dos grandes craques, como ele, mestres no controle e no domínio da bola.

Ninguém mais lembra de Ipojucan, grande meia da seleção, do Vasco e da Portuguesa, a não ser quando topa com um dos álbuns de figurinhas dos anos 50 do dr. Moacir Andrade Peres. Talvez o craque meu vizinho esteja praticando num quarto com uma pequena bola de tênis.

O certo é que só muito mais tarde ele volta para olhar o mundo ao seu redor. Sempre lento, sempre silencioso. Se apoia na grade da varanda e longo tempo fica olhando para baixo e, talvez como eu, pensando onde vai tanta gente de carro, se tudo está fechado. Será que, como eu, ele também pensa que há no brasileiro um secreto desejo de morte? Inconsciente, mas não menos verdadeiro.

O craque levanta o celular, mas é apenas um movimento automático. Dá um passo para entrar, não entra. Vira-se e não sabe realmente o que fazer. Mexe de novo no celular. Finalmente, lenta, muito lentamente desaparece no apartamento.

Fico um pouco mais de tempo à espera, mas sei que ele não voltará mais. Amanhã, naquele horário matinal, o craque vai retornar para outro dia absurdo. Quando chegar, eu já terei iniciado meu próprio dia absurdo e estarei lá esperando por ele.

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