Fábio Motta/ Estadão
Fábio Motta/ Estadão

O divisor de águas que a tragédia dos meninos do Ninho pode ser

A morte dos dez garotos da base do Flamengo nos fez repensar muitas coisas e comportamentos no futebol

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2019 | 13h11

Caro leitor,

Como você, o Brasil jamais se esquecerá da tragédia no Ninho do Urubu que matou dez garotos das categorias de base do Flamengo. Já editei e cobri como repórter algumas tragédias no País, dentro e fora do esporte, como o acidente da TAM em São Paulo, a queda recente do avião da Chapecoense e agora a morte desses meninos dentro do alojamento do clube, um dos mais ricos do mundo. Não há como não se envolver ou mesmo sentir, chorar, lamentar o ocorrido. Triste demais. Somos treinados ao longo da profissão, uma das mais bonitas que conheço, para não se envolver nos assuntos, de modo a contar as histórias imparcialmente. E é isso que fazemos todos os dias, seja no esporte, na política, na economia, na cultura ou nas coisas da cidade. É nosso dever. Mas isso não nos impede de desmoronar em casa, de voltar para os nossos filhos depois de horas de trabalho e agradecer por eles estarem ali, sorte que as mães e os pais dos dez garotos mortos no Ninho não tiveram.

Temos, no entanto, a obrigação de tirar lições das tragédias que nos envolvem, aprender com elas, usar o errado, o torto, o descaso que parece ter tomado conta deste Brasil, para melhorar. O luto por esses meninos vai nos assombrar por anos, décadas, talvez jamais deixaremos de falar dele. Sempre que novos incêndios ocorrerem, lá vamos nós para o Acervo do Flamengo buscar os fatos e as consequências daquele 8 de fevereiro de 2019, uma data agora emblemática para os flamenguistas como tantas outras de conquistas.

O dez garotos vão mudar muitas coisas no futebol, não tenho dúvidas disso. E elas já estão acontecendo. Hoje, por exemplo, o Fla x Flu adiado da semana passada pela semifinal da Guanabara terá no Maracanã uma série de homenagens, torcidas rivais se abraçando, como já se abraçaram em meio à tragédia, reverências e, principalmente, muita solidariedade e discussão sobre os fatos, sobre o futuro, sobre como nada deve ser mais importante do que o ser humano (Veja como acompanhar esse jogo). Nem mesmo a cor da bandeira do seu time. Diego, o camisa 10 do Flamengo, disse isso em sua primeira entrevista após a morte dos atletas. "Todos nós temos a alma de meninos de base". O meia está certo. Em um comentário feito recentemente, escrevo que esses meninos colocaram todos no futebol do mesmo lado, no sentido da organização, da valorização da segurança, da coisa certa em termos de estrutura, alojamentos, dignidade esportiva, respeito. Veja aqui!

Muitos se dispuseram a abordar o tema com visões específicas de acordo com suas áreas de atuação e experiências. Assim fez nosso repórter Fausto Macedo em seu blog ao dar voz ao advogado criminalista Marcelo Aith, que joga luz à discussão sobre o dolo eventual ou a culpa consciente dos dirigentes do clube carioca, que sabiam das irregularidades, viviam sendo multados e tinham um alojamento onde deveria ser um estacionamento. Ou mesmo nossa colega do Estadão Camila Tuchlinski ao nos ensinar sobre o luto e como lidar com ele. O próprio jornalista Ricardo Boechat demostrou toda a sua indignação antes de morrer ele também de maneira trágica em acidente de helicóptero.

Diante das evidências, o mínimo que o Flamengo poderia fazer, e demorou para agir desta maneira, era assumir a responsabilidade do incêndio e das mortes. Contra fatos não há argumentos. Não quando dez crianças morrem, conforme coluna publicado por mim no Estadão. O Flamengo se dispôs, e precisamos acreditar nisso, que vai indenizar as famílias das vítimas. Isso não vai trazer os meninos de volta, não, mas ao menos dará aos seus parentes um pouco de conforto financeiro. Ocorre que se qualquer processo nesse sentido for para a justiça, o caso poderá levar até dez anos, como nos reporta Gonçalo Jr. Pode acontecer se as famílias não aceitarem os valores propostos pelo clube. Os patrocinadores do Flamengo, por enquanto, defendem a postura da diretoria e continuam de mãos dadas com eles diante da tragédia.

O Ninho do Urubu foi um divisor de águas, não duvido disso e espero que você também tenha essa certeza, no modo de como cuidaremos de nossos garotos da base, como disseram Raphael Ramos e Gustavo Lopes num podcast (ouça aqui) do Estadão. Eles eram, até então, renegados a ambientes de segunda categoria nos clubes de futebol. Também servirá, acredito, para colocar a segurança acima de tudo no esporte, como já estão fazendo os times de São Paulo, retirando seus jogadores dos CTs com riscos ou em condições suspeitas e de falta de alvarás de uso. Temos o dever de aprender com as mortes dos garotos e não podemos deixar essa oportunidade passar.

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