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Ugo Giorgetti
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O fascínio do campo

Um exército de gente está à procura de um lugar que já foi seu no futebol

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2018 | 04h00

Ninguém quer deixar o campo. Quase todos os que saem continuam gravitando em torno do futebol como se não pudessem deixá-lo a não ser paulatinamente num exasperante processo que pode durar muitos anos. Um exército de gente está à procura de um lugar que já foi seu no futebol, mas que já está ocupado há anos, ou porque ficaram velhos, ou porque são apenas medíocres ou porque se machucam frequentemente, ou porque têm toda a sorte de problemas pessoais que impedem que uma pessoa dure no futebol por muito tempo.

Sabemos de muitos que acabam virando treinadores, mas nas imediações desses treinadores existe uma infinidade de funções exercidas por ex-jogadores que não conseguem deixar o campo definitivamente. São auxiliares (aspirantes a treinador), são empresários, são antigos ídolos que se tornam relações-públicas, são cronistas esportivos, são pessoas que tudo fazem dentro de clubes que eventualmente os abrigam. É comum de repente ver reaparecer um antigo jogador agora transformado em burocrata de qualquer cargo vago no clube.

Quando os vejo parece que reencontro velhos amigos perdidos. Fico feliz de saber que ainda estão na atividade que exerceram por anos e que certamente lhes faz enorme falta. É dessa gente que nascem os futuros treinadores que parece ser a profissão mais ambicionada, embora, na minha opinião, não a melhor. A melhor creio que é a dos antigos boleiros que acabam como funcionários de confiança dos clubes e, por anos e anos, reaparecem por uns dois ou três jogos orientando o time quando o técnico titular é devidamente demitido. Depois, costumam retornar para a sombra na qual vivem longos e calmos anos. É uma bela função. Perto do campo, como querem, mas longe dos riscos.

O diabo é que esse limbo feliz, por vezes, com o tempo, acaba por aguçar ambições que estavam sufocadas lá no fundo da alma de cada boleiro. E alguns caem em tentação. Sair da sombra e, como nos anos de glória, entrar em campo junto com a equipe recebendo os aplausos e tendo seu nome gritado outra vez. É incrível como pouca gente hesita em abraçar uma profissão com tantos percalços e que se revela frequentemente ingrata, injusta e cruel com a função de treinador. Alguns são ainda jovens, têm muita coisa que podem fazer na vida. Por que continuar? Dinheiro? Talvez, mas não creio. O que pode ser? O exemplo de velhos, consagrados e ricos treinadores que ainda estão por aí? Atualmente a vida não está nada boa para esses treinadores que chegam. Tentaram uma nova tática, um novo modo de trabalhar.

Mostram estudo, falam baixo, com educação, não gesticulam freneticamente para as câmeras. São muito diferentes dos consagrados velhos boleiros-treinadores. No início, toda a crítica saúda tanta novidade, tanta humildade, tanta devoção aos estudos, e isso dura um pouco de tempo. A torcida, entretanto, não dá a menor bola para estudo, táticas, futebol moderno ou o que for. Tem de ganhar e acabou. Aos poucos, a crítica abandona o entusiasmo inicial e o treinador acaba como tantos outros em dificuldade por aí. Fez bem Carille, que não tentou o diabo, e foi exercer sua profissão lá longe. Os que ficaram penam.

De vez em quando, um pequeno êxito catapulta o jovem treinador para um lugar mais alto. Mas não pode ser chamado de "cascudo", "copeiro", nem tem o "time na mão", terminologias nunca aplicadas aos jovens. Olhando por aí, poucos continuam empregados e os que estão sofrem sob terrível suspeita. Aos jovens não são permitidos nem mesmo lugares intermediários. É preciso, no mínimo, entrar em alguma competição internacional. Injustiças são cometidas até em relação a treinadores não tão jovens, como acaba de acontecer de maneira incrível com Diego Aguirre no São Paulo. Enquanto isso, temos Felipão, Cuca, Marcelo Oliveira, Mano, Levir Culpi e Abelão à espreita.

 

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