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Ugo Giorgetti
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O feitiço da Vila

Peguei o jogo por acaso na tevê e não acreditava no que estava vendo. O Santos massacrava o São Paulo na Vila Belmiro de modo exemplar. Não fiquei surpreso quando soube que o treinador do São Paulo, Juan Carlos Osorio, teria dito ao próprio Dorival Junior, depois do jogo, que tinha ficado encantado com o Santos e que era aquele o jogo que sonhava ver seu time jogar. De fato, poucas vezes vi um time combinar marcação, saída de bola e jogadas individuais com tanta perfeição. O segundo gol foi um exemplo, mas não o único. Deve estar aí no Youtube para verificação: vale a pena. 

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2015 | 03h00

O mais curioso é que só conheço vagamente o time dos Santos. Vi quando estava em péssima fase, chegando perto das últimas colocações e esqueci dele. Foi um erro. Porque o time que está reagindo, brigando claramente por um lugar na Libertadores é, a menos que me engane muito, formado rigorosamente pelos mesmos jogadores do começo do campeonato. Talvez enriquecido por alguns garotos da casa, o que é a marca do clube da Vila.

Como esse time passou a jogar tanto? Qual o segredo dessa reação? Sim, o Flamengo também reagiu e está também numa briga da qual parecia afastado definitivamente. Mas o Flamengo contratou. Chegaram atletas caros e, pelo visto, talvez não tenham parado de chegar. O Santos, não. É o mesmo time que lutava contra o rebaixamento. A conclusão a que chego é que essa molecada nova precisava apenas de alguém que confiasse nela.

Futebol é moral, já me dizia há muito tempo um boleiro de seleção brasileira. Alguém lhes deu moral, e foi o Dorival Junior. Curiosamente quem precisava de moral era ele mesmo, tantas as dificuldades nos últimos clubes, nas últimas temporadas. Talvez elenco e treinador tenham se unido em busca do mesmo objetivo: renascer. E conseguiram brilhantemente.

Dorival Junior parece ter o segredo de fazer o Santos jogar, e jogar bonito. Não por acaso, da oura vez que passou por lá treinou o time de Ganso e Neymar e que, ironicamente, era também o de Wesley, hoje no São Paulo, que parece ter perdido definitivamente seu futebol e, arrisco, também esteja à procura de alguém que lhe dê moral. De qualquer forma, com seus dois ou três veteranos e seus muitos garotos o Santos mostrou a que veio. Desisto de tentar entender o segredo desse time para revelar jogadores. Desisto de tentar saber por que os candidatos a craque acabam sempre por lá. Já cansei de me perguntar isso.

Uma explicação fácil parece ser a de que é um dos poucos times grandes que arriscam e colocam garotos sem pensar demais, sem verificar se “estão prontos”, se “adquiriram maturidade” e outras coisas do gênero. Ninguém parece levar em conta o “momento certo” para lançar jogador.

O Santos não parece preocupado com a alma, mas com a bola dos garotos. Lá o garoto chega e, se agradou nas categorias de base, joga. Ninguém faz muitas perguntas nem cogita muitas hipóteses. Será esse o segredo? Não sei. Será a própria cidade, um lugar em que se respira mar e futebol, onde se podem ver nas ruas antigos jogadores, campeões, que chegaram um dia por lá, como qualquer garoto, e nunca mais saíram nem depois de encerrada a carreira? Também não sei. Pode ser tudo isso junto.

O fato é que o Santos quando parece morto, é que está mais forte. Quando parece fraco é porque prepara os garotos que está fabricando. Eles chegam e mudam tudo. Claro que é necessário um treinador que incorpore essa mística, que também, por misteriosas razões, dê certo na praia. Não que Dorival não dê certo em outros times. Mas, no Santos, se sente em casa. A Vila é o seu lugar natural. Todo treinador tem um time onde se encontra: o seu time. O de Dorival, evidentemente, é o Santos. Essa adequação é também parte do conjunto de mistérios que, em falta de melhor explicação, só pode ser o feitiço da Vila.

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