Alex Silva/AE
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'O futebol brasileiro não é valorizado', diz Vanderlei Luxemburgo

Treinador critica os que defendem o Barcelona como modelo a ser seguido e vê em Neymar o ídolo do País para 2014

LUIZ ANTÔNIO PRÓSPERI, PAULO FAVERO, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2012 | 08h32

Longe dos holofotes, o técnico Vanderlei Luxemburgo está encantado com a estrutura do Grêmio. O treinador garante que está em um momento diferente da carreira e já passou da fase de busca por afirmação. Contratado pelo clube gaúcho no início da temporada, fez uma imersão de quatro meses no Rio Grande do Sul, para mesclar o estilo aguerrido da equipe com a técnica que tanto gosta de ver em suas equipes.

O treinador garante que aprendeu com todos no Grêmio, desde o presidente até a torcida. Sabe que o time tem chances de conquistar o Brasileiro, mas prefere desviar o foco para uma vaga na Libertadores. Nesta entrevista exclusiva, Luxemburgo fala sobre o futebol praticado no País, sobre a Copa de 2014 e defende a permanência de Neymar no Brasil.

Quem é o favorito à conquista do Brasileiro?

O título só vai ser decidido quando faltarem cinco rodadas. A gente não pode falar que o Atlético-MG já ganhou, que o Grêmio vai ganhar. Muitos times iniciam mal e embalam depois. Quem falar que sabe vai bater com a cara no muro.

Os jogadores não falam em título. Está realmente longe?

Como posso pensar em disputa de título se estou atrás? Eu quero ir chegando mais perto. Se continuarmos vencendo e eles também, não ganharemos. Mas se vencermos e eles não, a gente encosta. O discurso é de pensar no nosso objetivo, que hoje é o da Libertadores. Essa é a realidade. A grande mudança é que o técnico hoje tem o projeto de levar o time para a Libertadores, isso aumenta a receita em até R$ 30 milhões. Isso está dentro dos contratos formatados nos clubes com os treinadores, como meta. O São Paulo foi campeão seguido da Libertadores porque antes havia disputado seis vezes seguidas. Esse ano falei: "Acho que o Corinthians vai ser campeão da Libertadores", pois o time vinha de várias disputas anteriores, perdendo, sofrendo. As pessoas entenderam que a Libertadores é a Copa dos Campeões da América do Sul. Isso está valorizado.

Como foi a sua adaptação?

Muito boa, é uma cultura diferente, um estilo de futebol diferente, e é preciso se adaptar sem se abrir mãos dos meus conceitos. O Grêmio é famoso por ter um estilo aguerrido e determinado, mas os times vencedores sempre foram técnicos. O do Felipão tinha Carlos Miguel, Goiano, Emerson, Paulo Nunes e Dinho, que no São Paulo não errava passe. Hoje o time joga bonito, mas com o perfil do clube. Fiquei praticamente quatro meses sem sair do Rio Grande Sul para identificar como era isso e montar um time dentro da cultura do Grêmio.

 

Como foi a montagem do time?

Eu cheguei numa decisão contra o Caxias, fora de casa. Empatamos e perdemos nos pênaltis. Teve jogo que cometi erro, mas fomos superando as dificuldades. Houve um avanço muito grande desde que chegamos. Com Elano e Zé Roberto ganhamos qualidade, e já tinha uma estrutura e uma base boas. Mas estamos correndo em busca de uma melhor classificação. A fase crucial do Brasileirão é julho, agosto e metade de setembro, com 18 jogos nesse período. E quando perco algum titular, temos jogadores que já estavam no clube e que entram sem problema, como o Marco Antônio e o Léo Gago, que eram titulares antes. A base foi mantida. Levei o Pará, que é um jogador consistente, não é nota 4 nem 10, é nota 7, bastante regular. Todo time precisa de um jogador assim. Recuei o Gilberto Silva para quarto-zagueiro porque ele é pesado e não tem mais a mesma mobilidade. Trouxe o Werley, que já conhecia do Atlético. Recuei o Souza para segundo volante, temos também o Fernando...

Quando surgiu a ideia da contratação do Elano?

Quando vi ele saindo no túnel do Santos, com a torcida vaiando e ele balançando a cabeça, falei para o Paulo Pelaipe (diretor executivo): "Está na hora de tirarmos ele de lá". Como o Santos estava atrás de atacante, trocamos pelo Miralles. Trouxemos o Elano motivado, com 30 anos. Um jogador do nível dele precisa de ânimo novo, foi recebido de braços abertos, com nova proposta. Aí começou a render. Ele e o Zé Roberto são jogadores inteligentes, que entendem as mudanças táticas. Isso facilita a vida do treinador.

Antigamente se falava que um técnico só teria projeção se estivesse no eixo Rio-São Paulo. Como você vê isso?

Acabou esse negócio de que se não está no eixo Rio-São Paulo está fora. Eu, Felipão, Muricy, Abel Braga já passamos dessa fase. Quando se está começando, até para jogador, é diferente. Antigamente tinha de ir para um grande centro para ir para a seleção brasileira. Hoje não é mais assim. Tem muito jogador que é vendido para a Europa sem passar pelos grandes centros. O Hulk é um bom exemplo disso. Na Copa de 2014 teremos muitos brasileiros naturalizados que nunca fizeram carreira por aqui.

Você vê o Barcelona como exemplo a ser seguido?

Existe uma desvalorização muito grande do futebol brasileiro. Falam que o Barcelona é um exemplo de time. Mas quantos times no Brasil fizemos como este? Um monte. O Flamengo de Zico tinha 70% de posse de bola. O Santos, que foi campeão da Libertadores, dava espetáculo toda hora. E é recente. Não estou criticando o Barcelona, mas é questão de olhar com bons olhos. Quando falei que iria colocar o Ronaldinho no Flamengo como o Messi joga no Barcelona, me criticaram, pois achavam absurdo não ter centroavante. É a cultura do Brasil. A Copa de 1970 foi o maior exemplo de que não precisa ter centroavante, o Tostão estava nessa posição, mas fazia igual o Messi, atuava como meia adiantado.

Só que os times no País não têm um futebol vistoso...

Quem inventou três zagueiros no Brasil? Isso fez com que acabassem os laterais e os meias, eu venho combatendo isso há muito tempo. Quando fizemos isso na Copa de 90, fiquei muito preocupado com o futebol brasileiro. Fomos imitar os europeus, com o estilo de jogo deles, e esquecemos que tínhamos de incentivar a nossa qualidade, sem abrir mão da modernidade e do compromisso tático. O que aconteceu? Mudamos nosso estilo, perdemos a nossa irresponsabilidade na arte de jogar futebol, que é a maior qualidade que o atleta brasileiro tem. A parte individual quebra a parte tática. Não podíamos tirar essa magia.

Você já usou três zagueiros...

Claro que até eu usei essa formação, não sou burro. Se não tenho lateral, só ala, tenho de fazer isso. O mercado fez isso comigo. Aí fui ver jogo de juvenil e via três zagueiros. No Grêmio, apenas falei para o pessoal que, se colocassem três zagueiros, o lateral não iria aprender a fazer cobertura, zagueiro também não, e teria de tirar alguém do meio. Por que não tem mais meia-esquerda no Brasil? Tem de deixar o jogador talentoso na categoria de base apenas jogar bola. Tem de trabalhar em um campinho reduzido, para que ele tenha mais contato com a bola. Em muitos clubes, tiraram os ex-jogadores e colocaram os professores, que treinam os meninos em campos oficiais. Sabe quantas vezes o garoto pega na bola? Onde foi formado o Pelé, o Zico, o Maradona? Na várzea, jogando bola. Se não tem mais a várzea, cria minicampos nos centros de treinamentos. Na Gávea falei e no Grêmio também para fazerem um campo esburacado de 20 m x 20 m. Aí ninguém entendeu. É para dar destreza aos meninos. A gente jogava no paralelepípedo. Se não tem mais, temos de criar isso, incentivar.

Você pretende ajudar de alguma forma na Copa 2014?

Aqui no Brasil não chamam a gente para nada, essa é a grande verdade. Mesmo com a experiência que temos de técnico, ex-jogador, não somos chamados. Talvez o único cara que é solicitado no Brasil para tudo é o Parreira.

E como treinador, vai comandar alguma seleção?

Já tive um monte de convites, mas não me vejo trabalhando numa seleção para jogar contra o Brasil. Não me preparei para isso. O Brasil está bem encaminhado pelo Mano e vou ficar como espectador.

Você tem alguma frustração na carreira?

A única coisa que me deixou chateado foi no Atlético-MG, onde tive um presidente que é muito bom, o Kalil. Eu quebrei a perna e aquilo me deixou frustrado por não poder contribuir da maneira que queria. Foram quatro meses de afastamento, na cadeira de rodas, isso me deixou mal. Não retribuí o que ele fez para mim. Foi um dos grandes dirigentes com quem trabalhei.

Você acha que o Neymar precisa sair do Brasil para crescer profissionalmente?

O mercado brasileiro oferece a condição de crescer aqui. Hoje, paga-se melhor que em muitos lugares da Europa. Não vai acrescentar nada para a carreira dele sair do Brasil para depois voltar e jogar a Copa do Mundo aqui. Ele está entre os três maiores jogadores do mundo e é melhor ficar aqui, corrigindo seus defeitos e ser o grande nome do Brasil. O único problema que vejo é que a imprensa criou uma proteção muito grande para o Neymar. Ele tem grande talento, mas não precisa ser protegido. Parece que não se pode marcar duro. O que não pode ser é desleal. E o Neymar está sofrendo para tirar isso de dentro dele, que faz parte do processo de crescimento. A gente viu isso agora na Olimpíada, ele sofreu com isso.

E o Ganso, pode voltar a render um bom futebol?

Eu conheço muito bem o Ganso. O problema dele, a meu ver, é que o clube e o agente têm de proteger o jogador. Ele é extremamente talentoso, mas está aéreo. Ou você provoca um movimento para que ele fique satisfeito ou deixa ele sair. Não pode antagonizar.

Você já se envolveu em polêmicas, uma deles que dizia que ganhava dinheiro de jogadores...

Falam que eu levo dinheiro de jogador. Nunca levei e não vou levar. Será que com 60 anos de idade, 46 de futebol e desde 1983 trabalhando como técnico se tivesse alguém que me deu alguma grana não teria aparecido? Se eu um dia largar o futebol, vou montar alguma coisa na área, porque é isso que sei fazer. E vou ganhar muito mais dinheiro do que ganho.

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