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O futebol enfrenta uma crise financeira, mas os cartolas são indiferentes

Com o esporte abalado pelo impacto financeiro da pandemia, a diretoria da Fifa vai se reunir para uma videoconferência e cada membro ganhará dezenas de milhares de dólares só por assistir

Tariq Panja, New York Times

07 de dezembro de 2020 | 12h10

Por todo o mundo, a indústria do futebol está lutando contra as consequências financeiras do coronavírus. Ligas estão contabilizando perdas na casa das centenas de milhões de dólares. Os estádios continuam vazios. Funcionários das equipes são colocados em licença. E jogadores, mesmo dos clubes mais ricos, concordaram em aceitar cortes de milhões de dólares no pagamento, ou adiamento dos salários. Mas há um grupo que se mostrou inabalável diante dos custos da pandemia: a diretoria da Fifa.

Com os cortes de custos, a economia de recursos e dolorosas decisões tornando-se regra na maior parte do mundo do futebol, os homens e mulheres que ocupam os 37 lugares do Conselho da Fifa continuam a receber centenas de milhares de dólares. Para alguns, que receberão até US$ 250 mil este ano, a única obrigação é comparecer a três reuniões. Os funcionários mais graduados, que têm mais responsabilidades, ganham mais; a Fifa paga US$ 300 mil ao ano para seus vice-presidentes.    

E meramente dar as caras ficou mais fácil este ano: com a maioria das viagens internacionais restrita ou desaconselhada, os membros do conselho precisam apenas de conexão com a internet e uma poltrona confortável para participar.

Indagado a respeito da falta de comedimento entre seus dirigentes, um porta-voz da Fifa afirmou que a organização conseguiu realizar cortes de custos significativos em razão da diminuição das viagens e da realização de reuniões virtuais, o que tornou desnecessária uma reavaliação dos pagamentos.

"Nenhum outro grande corte de custos foi necessário para assegurar o contínuo apoio da Fifa à comunidade mundial do futebol durante a pandemia", afirmou o porta-voz.

Para os executivos mais graduados, a atuação na Fifa significa frequentemente apenas mais um dentre muitos dias de trabalho extremamente bem pago. Vários membros do conselho também ocupam cargos executivos em suas federações regionais, posições que oferecem seus próprios — e significativos — benefícios financeiros.

Membros do comitê executivo da Uefa, responsável pelos torneios de futebol na Europa, por exemplo, recebem salários de 160 mil euros ao ano (cerca de US$ 194 mil), e seus vice-presidentes recebem 250 mil euros (pouco mais de US$ 300 mil). A Conmebol, entidade que controla os campeonatos na América Latina, paga US$ 20 mil ao mês para os executivos de sua diretoria, enquanto a Concacaf, responsável pelo esporte no Caribe e nas Américas Central e do Norte, distribui US$ 135 mil ao ano para sua diretoria.

A dimensão desses pacotes salariais foi evidenciada recentemente com a notícia de que Greg Clarke, forçado a renunciar ao cargo de presidente da Football Association (FA) da Inglaterra após realizar comentários inapropriados durante a sessão de uma comissão parlamentar, recebia mais pelos poucos dias que atuava como um dos vice-presidentes da Fifa do que em seu trabalho diário, como dirigente do futebol inglês. Estava previsto que ele ganharia ainda mais no próximo ano, quando completasse uma planejada transferência para o comitê executivo da Uefa.

Ainda assim, entre a Fifa e suas seis confederações regionais, somente a Uefa impôs cortes nos salários dos executivos este ano: uma redução de 20%, por três meses, enquanto suas competições estivessem suspensas. E, em um momento em que a indústria do futebol tem como expectativa uma contração de bilhões de dólares, com ligas e times grandes e pequenos encarando desafios que ameaçam seu futuro, a decisão da Fifa de continuar pagando aos seus executivos salários anuais de seis dígitos chamou ainda mais atenção. Na semana passada, o Barcelona anunciou que seus jogadores concordaram com cortes de pagamentos que poupariam quase US$ 150 milhões aos cofres do clube.

"Ouvimos muitos apelos por solidariedade, o discurso de que estamos todos no mesmo barco — isso definitivamente contradiz tal narrativa", afirmou Ronan Evain, diretor executivo da Football Supporters Europe, entidade que reúne grupos de torcedores no continente europeu. De acordo com ele, torcedores de toda a Europa receberam pedidos para aliviar um pouco da dor que seus times estão sofrendo, em alguns casos remetendo-lhes parte do valor que pagariam por ingressos de jogos da temporada aos quais que eles não puderam comparecer.

"Definitivamente, é contraditório pedir isso aos torcedores, sendo que nem todos estão contribuindo da mesma maneira", afirmou Evain.

Na sexta-feira, o Conselho da Fifa realizará a última das três reuniões marcadas para este ano. Como as outras, será realizada por meio de videoconferência.

Durante a pandemia, os encontros foram os mais curtos já realizados, de acordo com participantes. A maioria dos membros nunca fala nada; alguns deles, na realidade, não falam nada há anos, afirmam integrantes mais antigos. E, mesmo antes de eles se encontrarem, a maioria das decisões já foi tomada pelo núcleo do Conselho da Fifa, um pequeno grupo formado pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, e os presidentes das seis confederações regionais (a África não está representada atualmente nesse organismo porque o atual presidente da confederação regional do continente foi banido do futebol no mês passado).

Na reunião virtual da sexta-feira, por exemplo, os membros do conselho terão de ratificar várias propostas — aprovadas pelos dirigentes mais graduados no mês passado — que concederão novos benefícios e prerrogativas para jogadoras, incluindo licença-maternidade mínima de 14 semanas. Eles também terão de aprovar decisões ligadas a assuntos disciplinares e de calendário, assim como o fim de uma parceria com um hotel, formada por uma liderança anterior da Fifa, que custou milhões de dólares à organização.    

Em termos de cargos de governança nos esportes, um assento no Conselho da Fifa é uma das cadeiras mais cobiçadas globalmente. Quase todos os anos, o organismo paga viagens de seus membros a locais exóticos, hospedando-os nos melhores hotéis e, nas reuniões, eles seguem frequentemente a liderança de seus presidentes regionais em seus votos. Atualmente impedidos de viajar, seu único sacrifício financeiro parece ser a impossibilidade de solicitar as ajudas de custo disponíveis para as idas ao exterior.

Além do pagamento, porém, o estilo de vida que os membros do Conselho da Fifa desfrutam inclui privilégios e status que o dinheiro não pode comprar, incluindo acesso aos melhores assentos nas mais importantes partidas. Miguel Maduro, ex-presidente do Comitê de Governança da Fifa, afirmou que os pagamentos e regalias são parte de um sistema que privilegia a lealdade e garante que o poder fique concentrado em um pequeno grupo de líderes graduados.

"A narrativa é a de representatividade de baixo para cima, um organismo em que você tem representantes eleitos que, em teoria, discutem e deliberam a respeito dos temas cruciais do futebol”, afirmou Maduro esta semana. “Em vez disso, como bem sabemos, não é bem isso que acontece."/Tradução de Augusto Calil

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