Christophe Ena /AP
Christophe Ena /AP

O futebol francês, racismo e homofobia

Durante os jogos, os torcedores, irritados com uma má jogada, insultam jogadores

Gilles Lapouge, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 14h54

O futebol francês sofre de uma doença estúpida que não conseguimos erradicar: com freqüência, durante um jogo de futebol, os torcedores, irritados com uma má jogada, insultam este ou aquele jogador. Recentemente, vários jogos foram assim vilipendiados por insultos homofóbicos, vindos das arquibancadas. Em outros jogos, esses ataques ou gozações não visam os homossexuais, mas aqueles jogadores que têm a indelicadeza de ter uma pele marrom, ou negra.

Esse comportamento imbecil não é uma especialidade francesa. O futebol é um esporte magnífico. Próximo da França, uma grande nação do futebol é vítima desses rituais. Cada país tem um catálogo particular de insultos. Na Itália o alvo são os jogadores negros ou árabes (que são brancos). A cenografia preferida é acompanhar uma jogada fracassada de um jogador com gritos imitando um macaco, ou berrando "volta para sua árvore!". Em seguida, esses torcedores se pavoneiam diante dos amigos. Da parte do país que inventou a Commedia Del Arte na Idade Média, é a decadência.

Os franceses não conseguem rivalizar com o gênio italiano. Se um negro ou um mulato os irrita, eles gritam "Bravo banania"  e em seguida não têm mais idéias. São melhores quando atacam os homossexuais, comumente imaginários. Na semana passada nos jogos da Liga 1 e Liga 2, eles usaram seu vocabulário: "Bicha", ou "filho da p".

Há pessoas que afirmam que esse tipo de comportamento é recente. Não é verdade: nos anos 1880 inúmeros italianos se refugiaram em Marselha, grande porto cosmopolita. Os marselheses ficaram revoltados com a vulgaridade dos recém-chegados e os espancavam, às vezes até a morte. Três italianos morreram. Aquela semana recebeu o nome de Vésperas Italianas (Esse termo é uma resposta a excessos muito mais antigos. Em 1281, em plena Idade Média, os sicilianos foram à caça dos franceses instalados nessa ilha. Durante uma semana os franceses foram massacrados e aquela semana foi chamada Vésperas Francesas, A história tem uma longa memória.

Retornemos ao nosso século. Na semana passada, dois árbitros foram obrigados a interromper um jogo por causa dos insultos lançados contra os "homossexuais". No dia seguinte o presidente da Federação Francesa de Futebol, Noel Le Graët, decidiu intervir. Aprovou o comportamento dos árbitros, mas seu discurso foi repleto de nuanças. "Não quero ser prisioneiro da homofobia. Interromper um jogo, sim, mas essas interrupções não devem ser longas".  Em seguida, introduziu uma hierarquia segundo os alvos dos insultos. Os insultos contra os homossexuais, sim, é ruim, mas na hierarquia das faltas há coisa pior: os racistas.

Neste caso, o presidente da confederação se mostrou intransigente: "aprovaria a interrupção completa de um jogo se forem lançados insultos racistas das arquibancadas". No dia seguinte a ministra dos Esportes, Rosana Maracineanu, ex-campeã de natação, se manifestou: "Não, o senhor Le Graët se engana. Não existe hierarquia. Atacar uma minoria (por exemplo, os homossexuais) é extremamente grave, tão grave quanto os insultos racistas. Nos dois casos, é preciso condenar rigorosamente.

Rapidamente foi organizado um debate entre os partidários de Le Graët e os da ministra. Os argumentos se chocaram. Os que desejam encontrar circunstâncias atenuantes no caso dos homofóbicos usaram um argumento exato no início e falso no fim: os jovens, disseram, que gritam esses horrores usam termos baixos sem o seu verdadeiro sentido. É um insulto, mas são lançados como numa aula de recreação, grosserias, sem referência ao seu sentido real. A palavra "pédé" (pederasta, bicha), por exemplo, os mais jovens nem a conhecem pois hoje ela foi substituída por homossexual ou gay. São termos hoje combalidos.

Estas análises não são obrigatoriamente falsas. Mas não justificam a indulgência de Noel Le Graët. "É preciso expurgar dos estádios essa purulência, disseram os outros, suspendendo certos encontros. Pouco a pouco os comportamentos degradantes diminuirão e desaparecerão.

Como no caso de muitos problemas da sociedade, voltamos à necessidade da pedagogia. Aguardando que a pedagogia faça seu trabalho (mas ela é uma ciência inexata e seus efeitos são lentos) vamos aguardar o próximo meio-tempo do jogo entre o presidente da Federação de Futebol Noel Le Graët e a ministra dos Esportes. E também os próximos incidentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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