Paulo Liebert/Estadão
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O futuro francês

Na partida entre Brasil e França pelo Mundial sub-17, os franceses tinham o time com mais negros em campo

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2019 | 01h30

Vi um jogo sensacional entre Brasil e França pelo Mundial Sub-17, que hoje chega ao seu final. Aos 13 minutos do primeiro tempo, já estava 2 a 0 para a França. No fim do jogo o placar mostrava Brasil 3 a 2 França. Foi um jogo sensacional e os garotos do Brasil mostraram algumas qualidades que faltam no time principal. Se é que temos um time principal.

Uma delas foi não se perder no jogo com o placar adverso. Sentiram de início, e era impossível que não sentissem, mas foram para a frente sabendo que a qualquer momento o poderoso time francês poderia liquidar o jogo num contra-ataque. Essa ameaça não impediu o time de jogar e, finalmente, contando já mais com a vontade do que com a técnica, dobrar a equipe da França. Foi eletrizante e nos conforta.

O que queria comentar, porém, não é o time do Brasil, pois muitos desses garotos espero ainda vê-los jogando aqui. Queria falar da França. Começando pelo futebol da equipe, e querendo ser breve, posso dizer que os meninos da França são ainda melhores que os garotos brasileiros. Não é minha opinião, mas da maioria dos especialistas que viram o jogo. Fizeram dois gols muito rapidamente, deram o jogo por ganho e resolveram administrar o perigoso placar. Deu no que deu.

Quanto a futebol, isso é tudo. Quanto ao resto, chamo atenção para um fenômeno que não é novo, mas, definitivamente, está presente nessa seleção sub-17. É simplesmente o fato de que no time francês que iniciou a partida havia dois brancos, no máximo. A maioria esmagadora de garotos era negra. A França era o time mais negro em campo, mais que o nosso, que habitualmente e tradicionalmente, mostra a arte negra de jogar bola para o mundo.

Isso é um dado impressionante num pais de tradições tão arraigadas como a França. Foi acontecendo pouco a pouco e assomou à superfície em 1998, com a França campeã do mundo, quando muitos franceses atônitos se deram conta do aumento de negros e árabes na equipe.

Para uma parte da população, e de certo segmento social, foi difícil engolir o fenômeno. Para outra, foi considerada uma redefinição da nação francesa. Essa parte da sociedade francesa parece estar vencendo, não fosse a França um país de extremos, de não recusar qualquer aventura humana. A pátria colonizadora implacável, mas também a do generoso asilo a quem lhe pede, essa França sempre em luta consigo mesma encontra no esporte um terreno de tolerância, fraternidade e liberdade.

Não é só no futebol que novos franceses de diversas origens e cores representam a solene República. No recente Campeonato Mundial de basquete havia a mesma equipe cheia de descendentes de ex-colônias, que fez, por sua vez, bela campanha, eliminada só na semi final pela Argentina, depois de ganhar dos Estados Unidos.

O esporte tem esse poder. No Brasil a presença negra foi fundamental. Estou certo que algo do preconceito racial no País se modificou devido ao futebol, em especial ao Pelé. Não acabamos com o preconceito, longe disso, mas a meu ver, inegavelmente, a imagem do negro brasileiro na sociedade não é mais a mesma de um tempo anterior à Copa de 1958. 

Foi isso, fora a qualidade técnica dos jogadores, que me entusiasmou tanto nessa seleção francesa sub-17. Ela é o futuro da França e se esse futuro não será o dos sonhos de conservadores, fanáticos religiosos, saudosistas de teorias sepultadas nos anos 30 do século passado, ele aponta para uma França renovada, de solidariedade muito mais forte entre seus filhos. 

Se a violência que de vez em quando assola o país, com atentados e mortes, pode ser vencida, certamente será com auxílio indispensável do esporte. No dia em que uma seleção francesa de maioria negra cantar em coro a Marselhesa, sem um único jogador calado e omisso, é que chegou a nova França. Allez les bleus! Vive la République! 

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