Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

O gesto do VAR ganhou o mundo

O gesto dos torcedores, em si, pode ser só um pequeno detalhe, mas simboliza bem concretamente o alcance desta revolução

Gianni Infantino, presidente da Fifa

11 Julho 2018 | 04h00

Foi logo numa das primeiras partidas desta Copa da Fifa que o fenômeno me chamou a atenção. Em resposta a uma decisão contra sua equipe, um grupo de torcedores imediatamente, quase automaticamente, esbravejava em direção ao árbitro, desenhando com as mãos um retângulo - o gesto com que se indica a revisão por árbitro de vídeo, o já famosíssimo VAR.

+ ANTERO GRECO: Neymar e o peso da Copa

+ ALEX: Prepotência

+ Leia outros colunistas de Esportes

A reação se tornou praxe entre os torcedores aqui na Rússia; quase tão instintiva quanto levantar a mão para mostrar um cartão amarelo imaginário ao jogador rival quando comete uma falta dura no craque do seu time. Como se o torcedor, em tão pouco tempo, já tivesse se acostumado a pensar: “só acredito se as câmeras confirmarem”. Confesso: testemunhar o nascimento dessa atitude me enche de orgulho da equipe que, ao longo de dois anos, testou e refinou a aplicação do VAR mundo afora.

O gesto dos torcedores, em si, pode ser só um pequeno detalhe, mas simboliza bem concretamente o alcance desta revolução. A equação, para mim, é simples: a Copa do Mundo da Fifa 2018 não seria a mesma sem o auxílio da tecnologia. Seria uma competição menos justa, e seus resultados, diferentes. Eu custo em encontrar argumentos que confrontem isso - e o digo não como presidente da Fifa, mas sobretudo como alguém que ama o futebol e já sofreu muito por seu time na arquibancada.

A essência do VAR é reduzir a quantidade de erros claros e determinantes, como nas 15 ocasiões em que, até agora, decisões foram alteradas após revisão. Se hoje marcam-se mais pênaltis do que antes, pois que bem-vindos sejam - já que, afinal, são legítimos e teriam passado despercebidos.

 

O que o árbitro de vídeo (VAR) não vai fazer é eliminar os erros, acabar com a falibilidade humana, revogar a subjetividade nas decisões arbitrais ou evitar a polêmica no futebol. E sabe o quê? Que ótimo que seja assim.

Desde que assumi o cargo há dois anos e meio, eu provavelmente tenho estado mais próximo da Copa do Mundo da Rússia - e de todos os seus pontos críticos, reais ou supostos - do que qualquer outra pessoa. É uma sensação tão intensa quanto fascinante. Quando se trata de um evento que atrai tanta atenção, é inevitável que haja controvérsia. 

Inevitável, também, que haja vozes críticas e que os holofotes estejam permanentemente acesos para destacar qualquer problema. Não digo isso com rancor ou agressividade, mas como simples constatação: é uma consequência natural de se organizar aquela que talvez seja a manifestação social e cultural mais poderosa e inclusiva do planeta.

Tudo o que a Fifa, o Comitê Organizador Local (COL) e as autoridades russas podiam fazer diante disso era se preparar: escutar cada crítica, acusação ou receio e tratar de assegurar, com planos e razões concretas, que tudo estaria sob controle e em perfeito funcionamento. 

Nós sabemos o que estamos fazendo. Com a Copa do Mundo, é preciso que seja assim. 

Não é por acaso que a Rússia 2018 tem 98% de preenchimento dos estádios. Não é por acaso que mais de 1 milhão de turistas estrangeiros viajaram até aqui, adotaram suas Fan IDs como se fossem medalha de honra ao mérito e não encontraram nem sinal do clima violento que tantos, tão “apocalipticamente”, previam - seja nos estádios, nas Fifa Fan Fests ou pelas 11 cidades-sede. Não é por acaso que milhões de passageiros têm tomado aviões, para não falar dos trens gratuitos, e percorrido sem problemas este enorme e maravilhoso país. 

Não é por acaso que existe um programa antidoping rigoroso e de primeiro nível, em que todo jogador é testado ao menos uma vez. Tudo isso é fruto de trabalho.

Por muito que minha opinião possa ser facilmente vista como suspeita, é muito fácil, para mim, dizer sem o menor receio: a Copa do Mundo da Fifa 2018 tem sido maravilhosa; um sucesso estrondoso. É tão fácil dizê-lo, porque nem bem se trata de palavra minha. Basta sair por aí e perguntar aos torcedores, atletas, jornalistas, integrantes das delegações. Na verdade, basta olhar ao redor e constatar o ambiente que contagia a Rússia estes dias: nada poderia ser mais distante da suposta frieza que um bocado de gente esperava.

Testemunhar essa mudança de percepção diante dos próprios olhos, em carne viva, numa questão de dias, não tem preço. É uma questão que transcende, e muito, o esporte. Um fenômeno histórico e sociológico que diz muito a respeito do poder do futebol e da Copa do Mundo, mas também sobre nós, humanos. De como, coletivamente, somos capazes de reações tão bonitas quando diante de algo que nos gera verdadeira emoção. 

Só cabe à Fifa, então, agir como guardiã dessa enorme fonte de humanidade - seja assegurando justiça dentro do campo ou pregando a ética e o respeito entre todos os que orbitam em torno dele. É o nosso dever diante do privilégio de organizar a Copa do Mundo, o espetáculo mais bonito que existe.

*GIANNI INFANTINO É PRESIDENTE DA FIFA

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.