Paulo Liebert/Estadão
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O grande escândalo

A história de um 'garoto' e de uma 'garota' que acabou na polícia

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 04h00

Um grande escândalo se deu na quarta-feira à noite. Estava eu satisfeito, vendo Fluminense x Cruzeiro quando a transmissão foi interrompida e deu-se início a outra transmissão, da partida entre Brasil e Catar, se partida é a palavra. Durante os cinco minutos que fiquei vendo essa partida o assunto dos comentaristas não foi o jogo, mas algo que monopolizava o futebol naquela noite. É claro que se falava do affaire entre o 'garoto' e a 'garota' que acabou na polícia.

É uma história banal, prosaica, fútil, vulgar e sem vergonha. Um 'garoto' rico encomendou uma 'garota' do Brasil e um 'parça' talvez tenha tomado conta da parte técnica da entrega. Uma vez a 'garota' em Paris, o 'garoto' foi avisado que sua encomenda tinha chegado e estava à disposição num hotel. Talvez ele já tivesse esquecido da 'garota', ou mal ouviu o aviso.

De qualquer maneira, o 'garoto' se apresentou para o encontro não em suas melhores condições de ânimo, e alguma coisa não deu certo. Nada como um boleiro para explicar um caso como esse. Vampeta, uma autoridade no assunto, dedicou ao caso menos de trinta segundos para explicá-lo.

Disse ele: "Isso é muito comum no futebol. Eu mesmo, quando jogava fora, levei várias vezes mulheres para a Europa. Outros jogadores faziam o mesmo, ainda fazem. Nunca aconteceu nada". Daí, olhando para a câmera com olhar mais do que eloquente, completou: "Nesse caso aqui, alguma coisa saiu muito errada, muito errada."

O mundo mudou desde os tempos de Vampeta, sobretudo a situação das mulheres. Ainda assim, creio que sua opinião não deve ser desprezada. De qualquer forma, cinco minutos de Brasil x Catar foram suficientes e, felizmente, descobri outro canal que transmitia Fluminense x Cruzeiro. Foi assim que fiquei livre do pequeno escândalo protagonizado pelo 'garoto' e pela 'garota', pequeno escândalo medíocre, que não devia ocupar mais de duas linhas de jornal de um país normal.

Na verdade, o grande escândalo ocorreu no Mineirão, e fora do campo. Antes uma palavra sobre o jogo: eletrizante. No primeiro tempo, o Flu fez valer suas melhores características da era Fernando Diniz. Passes rápidos, envolventes e destemor de atacar. Ganhou o primeiro tempo. No segundo, o Cruzeiro se recompôs e, como bela equipe que é, recuperou a iniciativa e o marcador.

Estava ganhando até aos 51 quando um gol mágico, sensacional, visto pouquíssimas vezes no Brasil ou Europa, definiu o placar em 2 a 2. Nos pênaltis, deu Cruzeiro, e só depois eu soube do verdadeiro escândalo da noite.

O jogador João Pedro, 17 anos, autor não só desse maravilhoso gol do jogo como de outros belos gols em jogos anteriores, já está vendido para um time inglês. Liverpool? Manchester? Não, Watford Football Club (!!!) Alguém já ouviu falar? Eu, nunca. Fui ao Google e vi fotos de uma pequena cidade do belo campo inglês, onde o principal fator de mortalidade deve ser o tédio. A equipe da cidade tem como maiores feitos, desde 1903, subidas e descidas sucessivas entre Primeira e Segunda Divisão da Liga inglesa.

Seu maior rival é o Luton Town, alguém conhece? Esse é o escândalo. Estamos perdendo craques para aldeias. O que tem a aprender um jogador brasileiro em Watford? Como voltará quando a sorte finalmente o resgatar da névoa e do gelo?

Não é a Inglaterra, muito menos em tempos de Brexit, que está mais rica. É o Brasil que quebrou e, por extensão, os clubes brasileiros. É o glorioso Flu, 'o time tantas vezes campeão', que não cessa de vender o que tem de melhor no inesgotável Xerém. O presidente da República, se queria ver futebol, deveria ter ido ao Mineirão, e depois descer ao vestiário do Fluminense para conhecer João Pedro, e não ir até ao hospital para saber da situação do 'garoto'.

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