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O homem revoltado

Mario Sérgio sabia que era um grande craque. Só isso

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2016 | 06h00

Mario Sérgio Pontes de Paiva, com esse nome de cirurgião emérito de algum hospital de ponta, apareceu para o futebol jogando muito, e, desde o início, criando casos. Sua carreira foi longa. Jogou nas principais equipes do Brasil, sempre em times grandes, donde se conclui que seus atos de revolta e insubmissão não o prejudicaram em nada, ao contrário, fizeram com que se transformasse de jogador em personagem, de atleta em mito. 

Vi muita gente se perguntando por que Mario Sérgio criava tantos casos e, vira e mexe, deixava clubes saindo não só pela porta de trás, como, frequentemente, pela janela. Não sou dos que quebram a cabeça tentando encontrar razões do que me parece até simples. Mario Sérgio sabia que era um grande craque. Só isso.

O grande craque é alguém que sabe que é mais importante que todos seus companheiros, mais importante do que o treinador, que o diretor de futebol e que o presidente do clube. Todos os grandes craques sabem disso, alguns, porém, fingem modéstia, que encaram como virtude. Fingem, mas deixam sempre escapar ao longo da carreira o que querem esconder.

A modéstia não é exatamente uma virtude. Ela deforma a verdade tanto quanto alguém que superestima seus méritos. Quem avalia a si mesmo com isenção está mais do que certo. Mario Sérgio era um desses. Não fingia ignorar seus privilégios de grande craque, fazia o que queria, dizia o que pensava, frequentemente era injusto e equivocado.

Só que jogava bola. Era um craque para outros craques, isto é, um jogador admirado por outros craques, capazes de ver em seu jogo as sutilezas e o refinamento que escapavam até dos mais fanáticos. Mas eram sobretudo os torcedores que o perdoavam. Nunca vi torcida reclamando de Mario Sérgio, muito pelo contrário. Jogava ao lado de grandes jogadores, ou ao lado de outros nem tanto, e era tão bom que fazia com que os medíocres melhorassem e jogassem mais.

Lembro-me que, em fim de carreira, pegou um Palmeiras de jogadores médios e levou o time à liderança que, aliás, foi perdida por um acontecimento envolvendo o próprio Mario Sérgio, pego no exame anti doping, num episódio nebuloso, polêmico, até hoje pouco esclarecido. Com a saída dele o time, claro, naufragou.

Transformou-se em treinador, e aí já não era mais ele. Queria, como técnico, ter o protagonismo do craque e viu que era impossível. Mas não conseguiu sair da ribalta e passou-se para a imprensa. Aí pôde voltar a ser um pouco o que tinha sido porque seus feitos como jogador ecoavam nos comentários e não havia quem o pudesse enfrentar como conhecedor de futebol. De novo, podia falar o que quisesse e criar suas encrencas habituais. 

Levei um tremendo choque quando soube que estava no voo fatal que destruiu tanta gente. Achei que havia algum engano, depois vi que de fato era uma das vítimas. Só acho que ele ficaria mais feliz se estivesse na lista dos jovens craques caídos, não na lista dos jornalistas. Não que não gostasse ou menosprezasse a imprensa, sobretudo os amigos jornalistas que tombaram com ele. Mas alguma coisa me diz que gostaria de ser lembrado, em primeiro lugar, como craque que foi. Acho que escolheria se perfilar ao lado dos outros jogadores mortos, porque era sua profissão primeira, onde tinha brilhado como poucos.

Desde que ocorreu o acidente, tenho me perguntado o que fazia Mario Sérgio lá dentro daquele avião. Soube por comentários, aqui e ali, que não tinha ficado muito feliz de ir. Não sei as razões da sua infelicidade, mas Mario Sérgio não precisava de muitas razões para se revoltar contra alguma coisa. 

Se realmente houver uma vida do outro lado e se neste momento nossos jovens craques, ainda aturdidos e surpresos, estão se perguntando o que aconteceu, espero que ninguém conte a Mario Sérgio as verdadeiras razões da queda do avião. 

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