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Ugo Giorgetti
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O homem só

O episódio é mais ou menos conhecido. Um homem foi morto, colhido no meio de um conflito entre corintianos e palmeirenses no domingo passado, antes do jogo. Passava pela Praça do Forró, em São Miguel Paulista, quando foi atingido por um tiro. Vestia bermuda cinza, camiseta laranja e sandálias de pescador. No bolso uma nota de 5 reais e um cartão telefônico usado em orelhões. Mais nada. O corpo foi para o Instituto Médico Legal e lá ficou. Na segunda-feira ninguém o reclamou nem na terça. Nessa altura, confesso minha abjeção, já pensava nesta coluna de domingo. Já se insinuava na minha cabeça uma bela coluna poética, vagamente melancólica, sobre um cadáver solitário, insepulto e sem nome. Na quarta-feira, abro o jornal e vejo que o mistério estava na mesma. Na quinta, agora já com o coração batendo, procuro notícias do caso e não atinei com nada ameaçador. Tranquilo, já tinha quase meio texto engatilhado, onde uma prosa elegante se aliava a toda uma poética da solidão e do esquecimento que cai inevitavelmente sobre todos. Tinha já esboçado uma verdadeira elegia ao morto sem nome, que provavelmente o comoveria, pudesse ele me ler. Na sexta, só por descargo de consciência, pego o jornal e para meu horror lá estava o homem devidamente identificado, com família e tudo.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2016 | 03h00

Por momentos pensei num erro. Mas não era e meus delírios poéticos foram por água abaixo. Alguém finalmente tinha tido a ideia, verdadeiramente genial e surpreendente, de submeter o corpo a um exame de impressões digitais que, em minutos, revelou o que se aguardava por quatro dias. Parece que divulgaram também um retrato falado que me escapou completamente. O fato é que a coluna tal qual eu a tinha pensado acabou. Mas surgiu outra, a verdadeira. A que dispensa qualquer poesia e demonstrações de habilidades de estilo. Ela é mais simples, talvez mais cruel. Eu esperava que com a presença dos parentes houvesse muito mais esclarecimentos sobre o homem, mas não foi bem o caso. A própria família só tinha sobre ele informações esparsas. Não fumava, não usava drogas, morava com dois irmãos, mas a casa tinha entrada independente, o que dificultava o contato. Não sabiam dizer se estava indo para uma igreja, como foi aventado por algumas testemunhas, ou para a casa de uma namorada, ou mesmo visitar a filha, de um relacionamento anterior. Nem a namorada nem a filha foram localizadas. Há muitos anos ganhava a vida com trabalhos eventuais, bicos que fazia aqui e ali. No momento tinha virado entregador de água. Enfim, uma vida simples. Uma irmã lamentou que não levasse consigo qualquer documento. Na opinião dela deve-se levar Cédula de Identidade mesmo pra ir até a esquina. Ninguém, porém, estranhou que, fossem quais fossem seus planos ou destino, levasse consigo apenas 5 reais. Ou estivesse vestido como quem vai realmente só até a esquina. Fiquei pensando como fui vagaroso e tardo ao entender o que se passava. Tudo não era senão o efeito de muita literatura de quinta e de cinema de terceira. O morto, na verdade, não tinha nada de singular. Era apenas um brasileiro como milhões, vítima de uma bala não tão perdida assim, de autoridades negligentes e incompetentes, cercado de um povo que vive mais ou menos como ele, que veste o traje-uniforme de qualquer brasileiro pobre, que intuía que documento é só uma formalidade sem significado na sua vida, e que o dinheiro de domingo é o que sobrava.

O IML só conserva um corpo no máximo por 15 dias "desde que haja espaço nas geladeiras". A vítima do jogo de domingo só não foi enterrada como indigente graças talvez às matérias que jornalistas como Gonçalo Junior, deste Caderno de Esportes, escreveram. Seria um desfecho ainda mais terrível. Em tempo: o homem não gostava de futebol. Os parentes acreditam que ele nem soubesse que no domingo jogariam Palmeiras x Corinthians.

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