Felipe Rau/Estadão
Henrique relembra dificuldades da carreira Felipe Rau/Estadão

'O IMPORTANTE É O QUE EU PENSO DE MIM', DIZ O ARTILHEIRO HENRIQUE

Goleador do Palmeiras, o atacante não dá bola para as críticas, conta que já passou fome e teve de superar barreiras para ser jogador de futebol

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2014 | 17h00

Em meados da década de 90, em um campo de terra batida da periferia de Guarulhos, o pequeno Henrique corria atrás da bola e sonhava em ser um novo Ronaldo. A mãe, Marli, muitas vezes mandava o garoto ir de ônibus ao treino e ela ia a pé, já que o dinheiro só dava para uma condução. Em alguns dias, no entanto, não restava outra alternativa a não ser ir a pé ao treino e chegar cansado. Anos depois, o jovem sonhador se transformou em Henrique, artilheiro do Palmeiras e um dos goleadores do Brasileirão.

Hoje, quando a torcida vê Henrique festejando seus gols passando a mão no pescoço como um ceifador, não imagina que por pouco tudo isso não aconteceu, tamanhas as dificuldades de uma infância pobre e da carreira em times pequenos.

Tudo começou no modesto AD 18 de Fevereiro, de Guarulhos, cidade em que o atacante vive até hoje. O clube fechou, mas alugou seu espaço para o União Marabá, uma escolinha que não conta com apoio de governo ou de empresários e é mantida pelos moradores do bairro Jardim Vila Galvão.

O local possui dois campos, um de society – que até pouco tempo era de areia e hoje conta com grama sintética – e outro típico de várzea, com muita areia no meio e grama apenas nas pontas. Ao lado de Henrique, o Estado visitou o local onde o sonho do artilheiro alviverde teve início.

"Tudo começou aqui. Eu tinha uns seis ou sete anos, meu pai passou aqui, perguntou como funcionavam as coisas e comecei a jogar", conta o atacante, que virou celebridade no local. Durante a visita, dezenas de amigos das antigas apareceram para matar as saudades do ilustre ex-companheiro e até uma viatura da polícia foi parar na escolinha. Mas não houve confusão. Eram apenas alguns amigos de infância que hoje são policiais e foram tietar o astro alviverde. A emoção tomou conta de Henrique, principalmente ao lembrar de seu passado e de seus pais.

Marli e Valmir – seu pai – trabalharam muito para dar ao filho as condições para não desistir do sonho. "Batalhamos muito e só tenho a agradecer a eles, que mesmo quando eu pensei em desistir não deixaram", lembra, emocionado.

O pai de Henrique é caminhoneiro e diversas vezes o atacante viajou pelo Brasil para acompanhá-lo. E cansou de tomar banho com água gelada em postos de gasolina. Mas sua vontade mesmo era encarar os volantes dentro de campo, e não em um caminhão.

Depois do 18 de Fevereiro, Henrique passou pelo AD Guarulhos e se profissionalizou no Flamengo, também de Guarulhos, onde passou por mais percalços. "A gente tinha dificuldade para se alimentar. Por ser da cidade, eles não deixavam a gente se alimentar no clube e não nos davam tanta estrutura. Muitas vezes tive de treinar com fome, então parava no caminho, comprava uma bala e tentava enganar a fome."

JOGOU A TOALHA

A certa altura, Henrique deixou de ser aproveitado no Flamengo e resolveu desistir. "Cheguei em casa e disse: 'Larguei'. Mas meu pai falou: 'Você lutou tanto para realizar seu sonho, não pode entregar tudo de mão beijada. Vá à luta'. Ele tinha razão, por isso segui em frente."

Embora muitas pessoas o tenham ajudado no futebol, algumas faziam questão de tentar estragar o seu sonho e falavam que ele não tinha condições de ser jogador de futebol.

Mas nada fazia Henrique desistir. Depois do Flamengo, passou por Lemense, União São João, Santo André, Cianorte, Chapecoense, Mogi Mirim, Santos e Portuguesa. Em nenhum lugar teve moleza.

No União São João, em 2012, aconteceu um fato que mudou sua vida. No pior momento que viveu no clube de Araras, com a diretoria devendo vários meses de salários, Henrique descobriu que seria pai de um menino.

Ele, que muitas vezes tinha de ficar em Araras por não ter dinheiro para viajar até Guarulhos para rever a família, teria de cuidar de uma criança. "Isso mexeu muito comigo. De uma hora para outra, eu tinha alguém dependendo de mim. Isso me deu força e também me deu mais coragem para lutar. Agora não era só por mim", lembra.

Sonho frustrado. No ano seguinte, o atacante conseguiu realizar o sonho de defender um clube grande. Nascido em uma família em que a maioria é santista, foi contratado pelo time da Vila Belmiro, mas o que era para ser alegria se tornou um grande fiasco. Foram apenas cinco jogos, nenhum gol e uma saída pela porta dos fundos. Ele havia acabado de chegar ao clube quando o técnico Muricy Ramalho foi demitido e Claudinei Oliveira assumiu o posto e o jogou para escanteio. "Claro que fiquei chateado, mas respeitei. Nos encontramos recentemente e está tudo bem."

Pela Portuguesa, fez sete gols no Campeonato Paulista e ganhou uma segunda chance. Foi para o Palmeiras. "Por tudo isso, eu dou muito valor ao que tenho hoje. Carreira de jogador de futebol é curta e temos de saber aproveitar as oportunidades."

Um fato curioso é que Henrique não começou como atacante. Ele era meia, mas precisou atuar improvisado como lateral-esquerdo no Flamengo de Guarulhos e foi profissionalizado assim. "Se eu continuasse como lateral, já teria parado. Eu batia bem na bola, mas a marcação não era o meu forte. Eu fazia muito pênalti e, quando atacava, não gostava de voltar", conta, divertindo-se.

Até mesmo a fama de "caneludo" não parece incomodá-lo. "O importante é o que eu acho de mim. Absorvo as críticas e sigo em frente. Por tudo o que passei, isso é o de menos."

Além dos gols, outra coisa que a torcida palmeirense se acostumou a ver é Henrique comemorando como se estivesse cortando a cabeça do adversário. A brincadeira surgiu por acaso, em uma conversa com um amigo, e a primeira vez que ele fez o gesto foi na vitória por 3 a 0 sobre o Sampaio Corrêa, pela Copa do Brasil. "O jogo estava resolvido, por isso resolvi fazer essa graça e pegou. Agora virou meio que uma marca."

SEM NOTÍCIAS

Nas poucas horas vagas, Henrique não quer saber de acompanhar notícias de futebol, nem redes sociais. Foi a forma encontrada para não se irritar com o que é dito a seu respeito. Ele tem um fã-clube virtual e uma conta no Instagram – rede social de publicação de fotos –, mas diz que não dá muita atenção aos comentários.

"Na fase boa é uma coisa e na fase ruim é outra. A gente tem de tentar saber entender as críticas e não se empolgar com os elogios, mas prefiro não acompanhar muito, não."

Henrique não gosta de badalação. Seus passatempos são encontrar os amigos, ir à igreja e se divertir com o filho Vinicius, que hoje tem dois anos e oito meses. Tudo isso sem esquecer das origens. E de Guarulhos. 

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