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O jogador invisível

A beleza do futebol de Tchê Tchê reside no detalhe, exige gosto por certo tipo de futebol

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2018 | 03h00

Quase ninguém fala nele. Nem bem nem mal. Para as entrevistas solicitadas no final de cada partida, raramente ele é chamado. A impressão que se tem é que só é entrevistado quando todos os demais jogadores já foram embora e só teria sobrado ele para atender o repórter retardatário. Se não fosse isso, ele poderia ter saído tranquilamente, discreto, se esgueirando por trás das câmeras como uma sombra. E apenas sombra continua nos comentários da imprensa sobre o comportamento da equipe, quando todos são analisados, para o bem e para o mal, menos ele.

Acredito que não seja antipatia gratuita, muito menos perseguição. É que ninguém parece saber o que fazer com ele ou o que falar dele. No entanto foi um dos heróis da equipe do Palmeiras campeã brasileira de 2016, sob o comando de Cuca. Continuou titular absoluto com Eduardo Baptista, manteve seu posto de novo sob Cuca, foi mantido sem nenhuma dúvida por Alberto Valentin e, finalmente, agora, sob direção de Roger Machado, num time recheado de estrelas recém-contratadas, se mantém titular, sem discussão.

Por incrível que pareça, é um dos poucos jogadores que ainda restam do time campeão brasileiro. Cuca é o responsável pela sua contratação e nisso mostrou argúcia e certeira intuição de um treinador de talento. Discutiu pessoalmente com ele as condições do contrato e deu-lhe imediatamente a camisa de titular, que nunca mais tirou.

O nome desse jogador invisível é Tchê Tchê. Fiquei muito impressionado desde a primeira vez que o vi jogar e tenho seguido suas atuações sem nunca me decepcionar. É moderníssimo, mas se disfarça de jogador de outros tempos. A beleza de seu futebol reside no detalhe, exige olho, atenção e gosto por um certo tipo de futebol. Parece apenas um médio-volante que dá uma ajuda à defesa, e é muito mais que isso.

De repente, quase sem ser notado, surge em lugares inesperados do campo e de seus pés saem invariavelmente passes certos. Passes feitos com ambos os pés, indiferentemente. Toma com frequência a melhor decisão que o lance exige e isso é o segredo de seu futebol. Se o lance exige providência simples, ele age com simplicidade. Se o lance exige agudez e passe em profundidade, o passe sai.

Na mais turbulenta região do campo, onde marcação dupla e pancada é coisa comum, consegue jogar e fazer jogar. Tudo discretamente. Como um jogador antigo que finge ser, movimenta-se em silêncio pelo campo. É necessário descobri-lo, pois não se exibe.

Mas, além da classe e do toque refinado, Tchê Tchê tem outras características que o jogam para trás, para um mundo de um futebol mais criativo e perdido. A começar pelo nome. Neste momento em que jogadores de futebol têm nomes e sobrenomes, como senadores do Império saídos das páginas de Machado, Tchê Tchê carrega um velho apelido, agora raríssimo, quase da época de Cabeção, Ratinho e Pé de Valsa. Também se distingue por ter sido revelado num clube pequeno e custado pouco, o que hoje pode soar como coisa de menor valor, já que a moda é pagar caro.

Por fim, é um dos poucos jogadores de sucesso saídos da quase destruída várzea paulistana e do futebol de salão da cidade. É, portanto, um dos últimos produtos futebolísticos de uma São Paulo que fabricava craques. Talvez esse acúmulo de coisas um pouco fora de moda ajudem a que seja tão pouco notado ou que não se encontre como defini-lo corretamente. Algo me diz, entretanto, que a torcida sabe avaliar seu jogo. E, por uma vez, não só a torcida. Outro dia, acho que depois do jogo com o Mirassol, Roger Machado, quando solicitado a identificar os destaques do Palmeiras revelou Borja e Tchê Tchê. Finalmente alguém estava olhando para ele.

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