Amanda Perobelli/Estadão
O apelido Majestoso se deve à capacidade na época da inauguração: 30 mil, então só inferior a do Pacaembu. O Moisés Lucarrelli é de 1948 Amanda Perobelli/Estadão

O Majestoso, sua mística e a direção do trem

Estádio da Ponte Preta, que já foi um dos mais imponentes do País, se prepara para a primeira partida da final estadual

Gonçalo Junior, de Campinas, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2017 | 07h00

Boa parte dos torcedores da Ponte Preta no estádio Moisés Lucarelli vai dividir a atenção entre o gramado e a linha de trem, que pode ser vista das arquibancadas. Para muitos, os trens de carga influenciam nos jogos. Se o trem vai em direção a Jundiaí, as chances de vitória da Ponte aumentam. Se ele for na direção contrária, o time perde ou empata. O palco da primeira final do Paulistão ajuda a explicar a história e a mística do time mais antigo do Estado.

“A ferrovia faz parte da história da Ponte Preta”, explica o professor José Moraes dos Santos Neto, historiador do clube. 

Quando foi construída, em 1872, a ferrovia fechou a passagem do Bairro Alto ao centro. Para resolver o problema, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro construiu uma ponte de madeira, que foi enegrecida com piche para durar mais. Uma ponte preta. A região virou o bairro da Ponte Preta, a manjedoura do futebol em Campinas. Hoje, ela foi substituída por um viaduto. A função viária se perdeu e ficou apenas a dimensão afetiva para a torcida. 

Nos anos 1960, a linha do trem virou arquibancada. Quem não tinha dinheiro para o ingresso via as partidas dali, mas a vista é parcial, só dá para ver metade do campo. 

A Associação Atlética Ponte Preta surgiu em 1900 no bairro onde moravam negros, imigrantes, operários e ferroviários. A casa própria do time demorou a sair. Incomodado com as chacotas dos amigos, o comerciante e industrial Moysés Lucarelli (a grafia era com “y” e não com “i”, como o estádio) comprou a chácara Maranhão no início dos anos 1940. Dono da fábrica de fogões elétricos Dako, Moysés investiu bastante, mas não sozinho. “Quem não tinha dinheiro poderia doar tijolos”, conta o jornalista e historiador Stephan Campineiro, especialista na história do time campineiro. 

O estádio não teve uma construtora. Não precisou. Ao longo de quatro anos, um mutirão de até duas mil pessoas colocava a mão na massa – e nos tijolos e nas barras de ferro. Foi inaugurado em 1948. Embora supervisionado por arquitetos e engenheiros, o acabamento não ficou perfeito, afinal, gente de todas as profissões trabalhou ali. Até hoje é possível encontrar tijolos desalinhados em uma das paredes do banheiro masculino, em uma das poucas áreas originais. 

O apelido Majestoso se deve à capacidade de 30 mil, que só era menor que a do Pacaembu e a de São Januário (o Maracanã ainda não havia sido construído). Hoje, a arena deve receber cerca de 17 mil pessoas. “O estádio é nosso orgulho”, admite o torcedor Douglas da Silva, que armou uma barraca na frente do Moisés Lucarelli para garantir seu ingresso dois dias antes da abertura das bilheterias. 

O cantor sertanejo Marcelo Perfeito acha que toda aquela energia dos mutirões da construção permaneceu ali dentro do estádio. “É um templo sagrado que dá força para o time”, diz o filho de Alfredo Perfeito, ponta da Ponte nos anos 1980. 

No Majestoso, a Ponte venceu o Santos (duas vezes) e o Palmeiras. Perfeito cita duas vitórias do time nas quais o trem passou na direção certa.

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Projeto de arena será mostrado ao Conselho do clube

Três empresas cuidam da concepção de um novo estádio

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2017 | 07h00

A Ponte contratou três empresas para cuidar do projeto de uma nova arena. O estudo será apresentado em 30 dias para o Conselho Deliberativo do clube. “Um grupo multidisciplinar está preparando um projeto arquitetônico e operacional alinhado ao modelo de negócios”, diz Carlos de la Corte, responsável pelo estudo de arquitetura. 

O arquiteto diz que o estádio terá um formato inovador de gestão, diferente da Arena Corinthians (clube destina renda para o financiamento) e do Allianz Parque (uso foi cedido à construtora por 30 anos), mas não revela a capacidade do novo estádio, que será construído na área do CT do clube, no Jardim Eulina, em Campinas. “A arena será precursora de uma nova fase na construção de ativos esportivos de entretenimento no Brasil”, diz Corte. 

Com a nova arena, a Ponte quer alcançar um patamar elevado no cenário nacional. O destino do Majestoso ainda não está definido. Os torcedores também estão sendo ouvidos. Uma pesquisa eletrônica com cinco mil ponte-pretanos do Brasil todo está em desenvolvimento para colher os desejos e opiniões da torcida sobre a nova casa da Ponte.

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