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O Mito queria ser rei

Rogério supôs que a fama de ídolo lhe daria força como técnico do São Paulo. Triste engano

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2017 | 05h44

A aventura fugaz de Rogério Ceni como técnico do São Paulo me fez lembrar de um filme, já clássico, de décadas atrás: O homem que queria ser rei, baseado numa novela do escritor Rudyard Kipling. O roteiro conta a trajetória de dois mercenários ingleses, vividos por Sean Connery e Michael Caine, que vão parar nas montanhas altíssimas do imaginário Cafiristão e lá são tomados por seres superiores. 

Connery é entronizado rei, por supostamente ser descendente de Alexandre, o Grande. Passa a acreditar no mito e se considera mesmo um semideus. A epopeia vira tragédia quando se descobre que são pessoas normais como os habitantes do lugar. Há tensão, perseguição, fuga, morte. 

O personagem de Connery foi tragado pela presunção de que, de fato, era soberano. Rogério deixou-se engolir pela fantasia de que, na primeira experiência como treinador, já faria parte do panteão dos mestres na categoria.

Pior: imaginou que o passado brilhante como goleiro, a carreira impecável de ídolo tricolor, bastariam como salvo-conduto para ficar no cargo por tempo indeterminado. Talvez uma versão brazuca de Alex Ferguson, famoso ex-manager do Manchester United. Ou mesmo um mestre Telê Santana, que se tornou lenda no São Paulo. Triste engano.

Os seis meses na função mostraram para Rogério que os antecedentes como prata da casa não impediriam que fosse submetido a avaliação semelhante à de tantos técnicos com os quais trabalhou. E, assim como eles, a permanência iria atrelar-se aos resultados.

Ou seja, deu a lógica: no futebol brasileiro – e, de certa forma, no mundo todo – a referência de sucesso ou fracasso de uma equipe concentra-se na figura do treinador. Vai bem, é incensado; vai mal, até logo, passar bem.

Dá para ampliar o conceito. Rogério sentiu na pele como todos são descartáveis em nossa sociedade. Assim como ocorre no dia a dia de qualquer mortal, pouco importam currículo, dedicação, história, integridade, competência, conhecimento. Se, em determinado momento, se conclui que o fulano deu o que tinha que dar, recorre-se ao método certeiro da dispensa: tchau.

Nesse episódio nada novo de troca de técnico não há ingênuos. O quarto de século de vivência no Morumbi deveria ter sido suficiente para ensinar para Rogério como funciona o clube. Ainda mais na história recente, em que o São Paulo desandou e mandou para escanteio a imagem de parâmetro de eficiência administrativa. A agremiação “diferente”, como apregoava o falecido Juvenal Juvêncio, virou saudade. Ou seja, não podia ignorar riscos, ainda mais sem ter acumulado ensinamentos prévios, quem sabe com um estágio de algumas temporadas nas equipes juvenis. A promoção viria com naturalidade e com amadurecimento. 

Os dirigentes viram vantagem na escolha de alguém sem lastro como treinador. O carisma de Rogério ajudou a acalmar ânimos da torcida e a apaziguar o ambiente político. Sem contar que lhe foi entregue elenco sem grandes estrelas. Se obtivesse sucesso, todos festejariam; se sobreviesse turbulência... bem, aí a solução dependeria das circunstâncias.

E o panorama é péssimo: o São Paulo despencou na tabela, está na zona de rebaixamento e bateu desespero geral. Jogadores saíram, Rogério não conseguiu dar padrão equilibrado e se perdeu em explicações evasivas, como a de velhas “raposas”. A opção fácil foi a dispensa. A cartolagem sabia que se tratava de novato, prometeu-lhe apoio e, na hora H, tirou o corpo fora e parte para contratação de sucessor com perfil conservador, como o de Dorival Jr.

Tomara Rogério aprenda a lição com o choque de realidade: uma coisa foi o jogador, mito inatacável, outra é o treinador, vidraça sempre. O mundo dá voltas, a vida ensina, a fila anda. Um dia voltará ao São Paulo. 

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