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O momento perfeito

Todo jogador de futebol sonha em ter um durante a sua carreira no esporte

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 04h00

Deve haver jogadores de futebol que não sonham em vestir a camisa da seleção brasileira. Deve haver jogadores que não sonham em jogar no Real Madrid ou no Barça. Dependendo das circunstâncias de vida de cada um, sonham com outras coisas que carregam por muito tempo, talvez desde a infância. Cada um tem seus próprios sonhos particulares de afirmação ou de redenção. 

Outro dia vi uma entrevista com o grande Leandro, lateral da seleção de 1982, um dos maiores da história do nosso futebol, que, por uma questão de caráter, às vésperas do embarque para outra Copa, sem hesitar, abandonou a seleção, mas que chora só de falar do Flamengo, o único time pelo qual jogou e fez questão de jogar a vida inteira. Cantou o hino do clube durante a entrevista, em lugar e tempo totalmente inadequados, tantos anos depois de encerrada a carreira, com a mesma emoção como se ainda fosse o pequeno torcedor da infância.

O sonho mais glorioso de Leandro era vestir a camisa rubro-negra. Desconfio, porém, que há um sonho comum a todo jogador de futebol: o de viver o momento perfeito. É muito difícil de descrever essa ocasião única como conceito, ou teoria. O momento perfeito se constitui da reunião de vários fatores. Primeiro, as condições do tempo. Nessa ocasião o céu tem que estar sereno, límpido, sem nuvens, temperatura moderada, “convidativa para a prática do futebol”, como diziam os antigos locutores.

Depois, vem o local. E não pode ser qualquer local. Tem que ser carregado de magia, palco de antigos e memoráveis momentos anteriores, onde gerações passaram as próprias recordações para outras que chegavam. Um campo em que uma nova geração aprendeu a amar e respeitar com a geração anterior. No momento perfeito o campo tem que estar repleto. Não apenas cheio, não lotado, mas repleto, com gente em todos os cantos, como se todos os torcedores também viessem para assistir esse momento especial junto com o jogador que tanto sonhou com ele. 

Aí vem a parte do adversário. Também não é qualquer adversário que vem compor esse momento “irrepetível”. De preferência um adversário também grande, também importante e, principalmente, um adversário do qual seja preciso ganhar e ganhar bem, mostrando a todos quem é o verdadeiro time vencedor. E, isso é importante, ser nesse momento especial, um digno representante das tradições do futebol brasileiro. O momento perfeito exige a restauração ou preservação da velha escola brasileira de jogar bola, a magnífica arte popular que nos fez conhecidos e temidos pelo mundo inteiro, tão maltratada ultimamente e julgada até desaparecida. 

A entrada em campo é parte fundamental do ritual do momento perfeito. É quando o jogador que sonhou com isso a vida inteira se vê diante da multidão da qual não consegue distinguir nenhuma face, mas advinha que estão com ele, que no fundo ele e a massa se transformam numa coisa só. É nessa hora que o jogador sente a sensação que o momento perfeito está na iminência de acontecer.

O jogo começa e desde o primeiro instante qualquer um percebe que o momento é esse. O adversário, mesmo um adversário confiante, e até arrogante, curva-se sem nada poder fazer. E o momento perfeito se completa com goleada. A goleada sempre fez parte de todos os momentos de exceção. Uma partida de placar magro pode até ser esquecida. Uma goleada não se esquece jamais.

O momento perfeito fecha-se quando o jogo acaba. Só que o jogo do momento especial termina antes. Termina quando a goleada já se deu e não há mais o que jogar, apenas deixar passar o tempo, fruindo cada minuto, olhando o espetáculo das arquibancadas, antes que o juiz piedosamente, para terminar a tortura do adversário, ponha fim ao jogo. Isso é sonhar muito, querer muito da vida? Pode ser, mas aconteceu esta semana, no Maracanã

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