Paulo Liebert/Estadão
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O ópio do povo

Futebol era a alegria que nos fazia suportar a vida normal, e que está em falta na Copa América

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 04h00

Durante anos ouvi essas palavras para significar que o futebol nada mais era que uma das formas, um sortilégio, um estratagema, para fazer o povo esquecer de seus verdadeiros problemas. Nunca acreditei nisso. Tinha, e tenho, a convicção que o povo sabe perfeitamente quais são seus problemas. Não sabe, ou não pode, resolvê-los. Os erros que o povo eventualmente pode cometer em suas escolhas nada tem a ver com o futebol.

Concordo que o futebol seja chamado de ópio do povo, mas por razões diferentes das que antes eram atribuídas à expressão. É o ópio do povo, na medida em que é impossível alimentar-se só de realidade num país como o Brasil, por exemplo. É preciso alguma alegria para que a vida seja suportável. Nesse sentido, sim, o futebol era o ópio do povo, e, até necessário.

 

Nenhuma sociedade pode viver exclusivamente da tristeza e da humilhação. Também nesse caso o ópio do povo funcionava e nos enchia de orgulho com os feitos de que éramos capazes.

Nossos heróis de infância eram todos jogadores de futebol, na falta de outros líderes que nos colocassem no nível das grandes nações. E os jogadores, não só nos colocavam nesse nível, como o superavam. Eram os estrangeiros, por uma vez, os inferiores, quando ao entrar em campo, com suas camisetas onde só faltavam as medalhas, as cruzes de guerra, as comendas, eram, com toda essa sua glória e tradição, destroçados por um bando de crioulos enlouquecidos, acrobáticos e criativos na sua improvisação. O ópio do povo produzia então a embriaguez de que era acusado e tornava a vida um pouco menos dura ou um pouco mais fácil de ser vivida. Não temos mais nada disso. 

Alegrem-se os que achavam que o futebol era o ópio do povo porque ele não existe mais. Nosso povo está livre do futebol e pode agora ficar só em companhias da vida quase insuportável que leva. O futebol como fonte de orgulho e satisfação acabou. O recado é dado pelo véu de indiferença, quase desprezo, com que é assistida essa Copa América.

O recado é dado pelos lugares vazios nos estádios e ilusão adicional de que ainda se trata de alguma coisa importante. A estupefação começa na execução do hino nacional enquanto a câmera percorre caras e rostos que não somos capazes de reconhecer, salvo um ou outro que gostaríamos de já nos ter esquecido. Depois o jogo, a nos fazer crer que alguém se apoderou do uniforme do Brasil e o distribuiu para um bando de amadores ocupando lugares que antes foram de profissionais.

Como se pode ter orgulho desse time? Como não silenciar e se afastar dessa seleção? O futebol brasileiro foi enterrado e um outro o substituiu. De onde veio não sei, mas seria melhor que ficasse lá de onde veio. Interromper o Brasileirão para ver essa Coap América definitivamente não foi uma boa ideia.

Pois, por pior que se esteja jogando aqui, nada é comparável ao que nos oferecem brasileiros que estão fora. Não consola saber que o Brasil não é o único na miséria futebolística. Outro dia Muricy Ramalho, ele mesmo craque como não há mais, dizia não reconhecer o futebol argentino no time que disputa essa Copa. 

Quero encerrar com nota aparentemente sem nada a ver com essa decadência, isto é, nota de otimismo cauteloso. O Palmeiras acaba de se sagrar bicampeão mundial no sub-17. Pouco foi divulgado, quase nada foi dito, ninguém sabe quem são esses garotos. Enquanto o time principal, na sua “obsessão” por títulos internacionais, contrata quem estiver disponível e tenha algum nome, seu time de garotos é campeão mundial duas vezes seguidas. Quantos desses desconhecidos garotos chegarão ao time principal? Quantos irão embora antes de chegar? Quem sabe não esteja entre esses meninos nossas últimas esperanças de o futebol se tornar de novo o ópio do povo?

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