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O outro lado

Como pode haver um outro lado da pandemia? Só faltava alguém ver um lado bom no flagelo

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

O outro lado da pandemia deveria ser o título acima completo. Não tive coragem de anunciá-lo por inteiro por medo de que me tomassem por louco. Como pode haver um outro lado da pandemia? Só faltava alguém ver um lado bom no flagelo.

Para o futebol, no entanto, ele existe. Trata-se da forçada valorização das categorias de base. Todos sempre estiveram de acordo que categorias de bases são fundamentais. Mas isso em alguns clubes não passava de retórica porque raramente se serviam delas e nem as levavam a sério. Existiam apenas para cumprir campeonatos organizados pelas federações dos quais seria praticamente impossível não participar. 

A coisa já vinha mudando nos últimos tempos antes da pandemia, mas se acentuou nela. O fato é que faltou dinheiro e quando falta dinheiro é melhor voltar-se para o que é grátis. A mudança principalmente foi feita por esse motivo. Não há mais patrocinador, pelo menos no momento, disposto a gastar de maneira às vezes descontrolada para satisfazer exigências de treinadores e torcedores. 

Dinheiro faltante, viva a base! Na verdade, a base significa a passagem de um clube da servidão para a liberdade. A base, antes de tudo, liberta o clube do jugo do patrocinador, das influencias do patrocinador, das pressões do patrocinador e da necessidade de resultados imediatos, também exigências dos patrocinadores. Nesse sentido, ir à base é como dar ao clube novamente o comando de seu próprio destino, inclusive quanto a treinadores que exigem reforços não importa como. Os treinadores foram obrigados a trabalhar com o que lhes é possível ter. E alguns não estão se saindo mal, diga-se.

Diniz, no São Paulo, é um deles. Não fosse a pandemia, e o relaxamento das pressões sobre o clube, e ele já estaria na rua. No entanto, parece que recupera seu time valendo-se exatamente da base. Aliás, outro efeito deste momento, benéfico para o futebol, é o afastamento das torcidas. Todos podem trabalhar em paz quando os torcedores que pressionam, os que derrubam treinador, os que mandam no clube, estão confinados a prudentes centenas de metros do estádio. 

Não se trata de saber se têm ou não razão. Se trata de constatar que há mais racionalidade com eles todos à distância. Macacos velhos, logo entenderam o que acontecia e trataram de se aproveitar da situação. Especialistas da estranha ciência de saber antes de todos para que lado sopra o vento, saem na dianteira e ganham pontos.

É o caso de Vanderlei Luxemburgo, admirável cultor da arte de sobreviver, que, já bem antes da pandemia, tinha percebido tudo e não só foi à base como reconheceu quem poderia se misturar com veteranos renegados para construir um time que pode surpreender muito. Renato Gaúcho, Paulo Autuori e uns poucos mais, que têm um olho nos profissionais e outro na base, se saem sempre bem. 

O Santos tem que se voltar de novo para sua base tradicional e privilegiada, depois da passagem de Jorge Sampaoli, um especialista em contratações e exigências. Hoje Sampaoli está no Atlético Mineiro fazendo exigências e demandas como se a crise não existisse. É seu jeito de trabalhar, na contramão da realidade.

Um último fato em que a pandemia ajudou o futebol reside na diminuição de dinheiro na Europa, eles também atingidos pelo mal, principalmente nos bolsos. As gastanças desenfreadas, o dinheiro jogado fora são coisas que não existem mais na União Europeia. Por isso contratam menos e nos visitam menos. 

É sem dúvida um bom momento para o futebol e para este Campeonato Brasileiro sem público, com horários de jogos meio malucos, mas com garotos do São Paulo, do Botafogo, do Palmeiras, Grêmio e Internacional renovando o ar do futebol. Boas novas!

*É CINEASTA. DIRIGIU OS FILMES 'BOLEIROS' E 'BOLEIROS 2'

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