Taba Benedicto / Estadão
Taba Benedicto / Estadão

'O Pacaembu pode render R$ 100 milhões por ano', diz concessionária

Líder do consórcio vencedor da concessão aposta em um novo centro de esportes, entretenimento e lazer

Entrevista com

Eduardo Barella - presidente da concessionária Allegra Pacaembu

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 17h00

De acordo com a prefeitura de São Paulo, a receita do Pacaembu no ano passado foi de R$ 2,7 milhões e os gastos foram de R$ 9 milhões, ou seja, um prejuízo de R$ 6,3 milhões. A concessionária Allegra Pacaembu, responsável pelo estádio pelos próximos 35 anos após a assinatura do contrato de concessão com o poder municipal, promete um salto financeiro. “Nossa expectativa é que, a partir do terceiro ano de uso, o Pacaembu tenha uma receita superior a R$ 100 milhões”, prevê Eduardo Barella, líder do consórcio em entrevista exclusiva ao Estado. As obras começam no ano que vem – os prazos ainda não são precisos – e duram por volta de dois anos. O novo Pacaembu será inaugurado em julho de 2022. Durante as obras, a arena ficará fechada.

Corintiano fanático que guarda várias camisas do clube na gaveta do escritório, Barella gosta do centro velho da cidade. Seu escritório está localizado no Largo do Arouche e ele mora na Praça da República. O administrador afirma que a tendência dos grandes estádios é diversificar sua utilização. Mas ele não quer o Pacaembu perca seu charme e originalidade. “Vamos restaurar e dar melhor uso”, promete.

Os desafios, no entanto, são grandes. As obras ainda precisam do aval dos órgãos de conservação do patrimônio público. Além disso, a população terá de mudar seu olhar para o estádio. O projeto prevê a demolição do tobogã para a construção de um novo edifício com cafés, restaurantes, lojas, escritórios, espaços multifuncionais e o centro de convenções e eventos, construído no subsolo junto ao novo estacionamento.

Um dos pontos mais importantes do projeto é a demolição do tobogã, setor que costuma concentrar os ingressos mais baratos. O Pacaembu vai ficar mais elitizado?

Eu discordo desse ponto de vista. Queremos fazer um estádio mais democrático. As empresas que usam o futebol como negócio não têm o espaço para ações de relacionamento com seus clientes. Queremos receber o público corporativo, mas continuar com o pessoal que normalmente ia ao tobogã. Vamos reorganizar a distribuição desses ingressos e continuar tendo ingressos acessíveis em outras zonas do campo, reservando o camarote para o público corporativo.

As obras ainda dependem do aval dos órgãos de conservação do patrimônio público?

Sim, mas eles não analisam mais o “porque” das obras, mas apenas o “como”. O grande acerto do edital de licitação foi orientar as diretrizes dos órgãos de patrimônio. Tudo o que deve ser feito dentro do estádio já está descrito de maneira objetiva. Não é possível construir um prédio de 20 andares, por exemplo. Não posso. Todas as estruturas do ginásio são de madeira. Por isso, nós não podemos usar explosivos para demolir o tobogã. O golpe de ar destruiria a estrutura do ginásio. Ele será demolido na mão para não comprometer a estrutura do ginásio. O Pacaembu está na memória afetiva da cidade. A gente quer guardar essa memória. Como faço isso? Preservando o que está lá. Vamos restaurar e dar melhor uso. Manter a originalidade do projeto adaptando aos usos modernos. O que puder ser mantido como original será mantido.

Como mudar o olhar da cidade para o Pacaembu?

É um modelo disruptivo, eu concordo, mas nós estamos fazendo algo para o qual o Pacaembu foi pensado. Estamos trazendo o projeto original. Propagandas da época em que foi ele construído, nos anos 1930, convidavam as pessoas para morar perto de um centro de esportes e lazer. Ele foi idealizado com essa forma multiuso. Na década de 1970, essa utilização se perdeu. Essa construção mais amigável, com prédios, que oferecem cafés e restaurantes, por exemplo, está voltando.

Quais são os próximos passos após a assinatura da concessão?

A partir do recebimento da ordem de serviços, que deve acontecer nos próximos dias, a prefeitura opera nos primeiros 60 dias com o nosso acompanhamento. A partir do sexagésimo primeiro dia nos operamos o complexo com o acompanhamento da prefeitura até o nonagésimo dia. Já a partir do nonagésimo dia nós assumimos definitivamente a operação. Em paralelo, estaremos detalhando projeto para iniciar os pedidos de alvará e aprovação nos órgãos de tombamento. Este prazo deve durar entre 6 e 12 meses e só aí as obras irão começar. O Pacaembu ficará então fechado por 28 meses e estamos programando sua reabertura em julho de 2022.

Quanto é o total do investimento nas obras?

Nossa previsão de investimento é de 300 milhões de reais. Serão recursos privados, sendo uma parte do consórcio e outra por meio de uma estrutura de capital no mercado financeiro. Temos duas frentes de obras. Uma delas é o restauro do ginásio poliesportivo, piscinas e quadras de tênis. Isso deve consumir algo de R$ 40 milhões a R$ 50 milhões. O restante da verba vão ser da demolição do tobogã, escavação do programa subterrâneo e a construção da nova edificação.

Depois de pronto, em pleno funcionamento, quais as principais receitas do Pacaembu?

Nossa primeira linha de receita será de eventos e entretenimento. Eventos indoor que serão realizados no centro de convenções da parte subterrânea. Vamos fazer de 250 a 300 eventos por ano. Nessa área de eventos estão os eventos esportivos, como o futebol. A segunda linha de receita é o aluguel dos espaços da nova edificação. Estamos negociando com os usuários do complexo. A terceira linha de receita é de estacionamento. Depois, exploração de alimentos e bebidas e patrocínios.

O Pacaembu vai concorrer com o Allianz Parque na realização de shows?

Não acho que são espaços concorrentes. O Allianz conseguiu preencher um espaço nos shows de campo e no futebol. Estamos focados em eventos menores no espaço subterrâneo. Estamos falando desde convenções médicas até shows menores com capacidade para cinco mil pessoas no espaço indoor.

O Pacaembu será a casa de algum clube específico, como o Santos, por exemplo?

A beleza do Pacaembu é ser um campo neutro. Queremos transformar o Pacaembu no principal campo neutro do Brasil e das Américas. Queremos potencializar o uso do Pacaembu como estádio de futebol recebendo os quatro grandes de São Paulo e também clubes de outros estados. Também queremos torneios amadores, como a Taça das Favelas, os jogos das categorias de base e do futebol feminino. Nesse contexto, acho muito complicado que um clube consiga suprir nosso plano de negócio e nossa receita esperada.

Como atrair clubes de outros estados?

Hoje, os clubes já vendem seus mandos de campo para Brasília. Imagine a população do Nordeste que está em São Paulo, como Ceará, Fortaleza. Estamos iniciando essas conversas. Faz todo o sentido mandarem esses jogos no Pacaembu.

Qual será o valor do ingresso para os jogos de futebol?

O valor do ingresos é construído com o clube que vai jogar. Ainda não chegamos a esse momento.

As atividades esportivas continuam gratuitas?

A piscina e os espaços de esporte continuam públicos. No caderno de encargos da prefeitura, prevê a cessão de cinco horas semanais que continuam sob responsabildade da Secretaria Municipal de Esportes. No restante dos dias, vai continuar como existe hoje, com exceção dos dias de eventos.

Imagens divulgadas sobre o novo Pacaembu não contemplam itens de acessibilidade. O Pacaembu será acessível?

Hoje, não se aprova na cidade de São Paulo nenhum projeto que não preveja acessibilidade. Foi feita uma análise só das fotos divulgadas na coletiva de imprensa após a assinatura da concessão. O nosso projeto prevê todo tipo de acessibilidade prevista por lei. Estamos baseados nos sete princípios do desenho universal. Eles nortearam nosso projeto de acessibilidade. O complexo tem de ser igualitário, adaptável, óbvio, conhecível, seguro, sem esforço e abrangente. Esses pilares guiaram nosso projeto.

Quanto o Pacaembu pode gerar de receita?

Nossa expectativa é que, a partir do terceiro ano de uso, o Pacaembu tenha uma receita superior a R$ 100 milhões. Do ponto de vista de objetivos estratégicos, queremos que seja o melhor campo neutro do Brasil, um espaço democrático, a casa de todas as torcidas. Queremos que ele seja o primeiro equipamento a ser lembrado para uso diário, seja para realização de esporte, compras, lazer.

Com esses números, o Pacaembu estará em que patamar no cenário nacional?

Acredito que os equipamentos privados que têm maior nível de utilização, como o Allianz Parque e o Mineirão, tenham números parecidos com isso.

No terceiro ano, o Pacaembu já estaria no mesmo patamar desses estádios?

Essa é a nossa ideia. A gente espera que isso aconteça no terceiro ano, mas estamos positivamente surpresos com a receptividade. Estamos sendo muito procurados por muitas empresas que querem estar ali. Talvez esse prazo se antecipe, o que seria uma grata surpresa para nós e para a cidade. Essa é uma concessão. Nós não estamos comprando o Pacaembu. Temos o direito de operar o Pacaembu por 35 anos. Depois desse período, esse equipamento ficará com a cidade.

Porque o Pacaembu?

Estamos buscando equipamentos que tenham características de receitas acessórias, ou seja, receitas múltiplas. Estamos buscando locais com as características do Pacaembu. O mercado brasileiro ainda não tem olhado as arenas de forma adequada. Elas fazem o futebol e depois organizam eventos dentro do estádio. Muitas vezes os espaços não são adequados. Nós estamos preparando espaços para isso. Nós já temos uma edificação pronta. Veja, por exemplo, o estádio do Manchester United, que tem um museu, um café, restaurante, dois hoteis. O estádio da Juventus tem um complexo comercial aberto todos os dias. Nós queremos nascer com essas características.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.