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O pai de mil homens

Treinadores têm o costume de adotar livros de cabeceira. Ouso aqui a recomendar dois a Tite

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2017 | 06h00

O trocadilho do título tem a ver com o assunto onipresente nas conversas de boteco, escritório e salões de beleza: Tite.

A façanha da arrancada sensacional de oito jogos, oito vitórias, 24 gols feitos, apenas 2 sofridos e o carimbo de primeira seleção classificada para a Copa da Rússia (os donos da casa têm vaga desde sempre) elevaram o treinador a um patamar inédito: não me lembro de nenhum técnico que tenha conquistado tamanha popularidade – quase unanimidade.

A ovação e os discursos de adoração reverberam por onde ele passa a ponto de o seu nome ser mais lembrado e festejado do que o de Neymar, talvez o melhor jogador do mundo no momento. 

Como? O que mudou? O que Tite faz? Qual é o segredo? A torcida aplaude. Os jogadores elogiam sem cessar. A imprensa esportiva brasileira, quase sempre tão ranzinza, parece anestesiada com a avalanche de boas notícias desde que Tite aceitou o convite ao mesmo tempo indigesto e irresistível da CBF.

A reação dele ao saber que, favorecido pela vitória do Peru sobre o Uruguai, o Brasil estava matematicamente classificado para o Mundial, é daquelas que desarmam a má vontade do menos “Pacheco” dos brasileiros. Além do sorriso aberto e do agradecimento ao “Pai do céu”, Tite repetiu que vai tomar uma ‘caipora’ para festejar. Convido a todos a assistirem à cena. E me arrisco aqui a convidar o Tite a ler dois livros neste período de desafogo (momentâneo).

Não se trata dos clichês A Arte da Guerra, de Sun Tzu, O Monge e o Executivo, de James Hunter, ou O Príncipe, de Maquiavel, muitas vezes usados com viés questionável pelos nossos “treineiros”.

Minha primeira sugestão é O filho de mil homens, que inspirou o título da coluna, do autor angolano/português Valter Hugo Mãe. Sem forçar metáforas (porque seria ridículo com obra tão premiada) e sem estragar a leitura de ninguém, faço aqui um raso resumo. O pescador Crisóstomo, dono de uma vontade irrefreável de ser pai, conhece em uma pescaria o órfão Camilo, e durante vinte capítulos o leitor acompanha a invenção e a construção de uma família. Ao descrever uma comunidade simples e os sonhos enterrados dos seus moradores, o livro trata de amor, solidão, preconceito, compaixão e da responsabilidade de todos com a própria vida e com a dos outros. É transformador. 

A segunda sugestão é Submissão, de Michel Houellebecq. Aqui o protagonista François (ateu e com convicções políticas de esquerda) aceita participar do novo sistema educacional imposto por uma França sob o regime islâmico em troca de um alto salário e do prazer carnal da poligamia. É perturbador.

Já se disse muitas coisas sobre o poder de gerir o grupo que Tite tem. Será reconfortante saber que Tite sabe e saberá gerir tudo isso que ele virou.

CARA

Copo muito mais cheio 

Vaga na Copa e liderança do ranking da Fifa nunca garantiram sucesso do Brasil em Mundiais. O sistema de pontos corridos das Eliminatórias Sul-Americanas favorecem os times mais talentosos. Acalmemo-nos. Se o Mundial fosse amanhã, teríamos os 23 definidos? Quem seria o reserva do Gabriel Jesus? E o goleiro seria o Alisson? Mesmo?

COROA

Copo muito mais vazio 

Tite assumiu e ganhou os dois primeiros jogos, recolocou o Brasil na zona de classificação, mas... Ganhou na sequência mais seis partidas, classificou a seleção para a Copa, mas... O próximo mantra que “vocês da imprensa” vão repetir é que não se pode elogiar tanto porque não ainda não enfrentamos nenhum grande europeu... Reticências demais. Alegremo-nos. 

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