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O passaralho

Muito presente no jornalismo, acabou acontecendo para vários técnicos do futebol brasileiro

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h00

O passaralho é um pássaro mítico, como a fênix por exemplo, muito popular nestes trópicos, especialmente quando eu era jovem. Talvez continue tão vivo como antes. Mas quando tomei conhecimento dele, era um produto da lenda, dos lugares vagos e nebulosos, criados pela imaginação. Era um pássaro ameaçador, mas sua presença era apenas sentida, não vista, sabia-se que estava adejando ao redor, ligeiro como um sopro, uma assombração vinda do mundo do invisível, das regiões frias da alma.

Aparecia muito frequentemente, talvez ainda apareça, nas regiões habitadas por jornalistas, publicitários, artistas, até professores. Começava-se a falar dele pouco a pouco e, com o tempo, ia adquirindo presença e forma. Sobretudo era um assunto raro no começo, mas que passava de eventual para constante de todos os interessados. Em pouco tempo só se falava nele e na iminência da sua presença. Entrava-se numa agência de publicidade e o ambiente já traia seu provável aparecimento.

Ninguém sabia o exato momento em que iria se manifestar. Todo mundo trabalhava como podia, um olho na Olivetti Lettera 22 outro nos colegas, nas suas feições, procurando nelas a revelação de que finalmente o passaralho estava entre nós. Mas podia ser alarme falso. Alguém, de outra agência ligava: “O passaralho já passou aí”?

Um dia ele inevitavelmente aparecia. Seus sinais mais reais de que estava em ação era som de telefones tocando um pouco mais do que o normal, um pouco mais perto da gente, um som que no intervalo de um dia tinha se transformado em francamente aterrador. A página ficava em branco, ninguém ousava fazer qualquer coisa naqueles momentos, talvez o silêncio das máquinas afastasse o passaralho.

Colegas que passavam pelo corredor traziam no rosto a efetiva marca da sua presença. Você olhava para o colega com quem dividia a sala e notava que ele estava um pouco mais pálido. Como estaria a minha própria cara? E, de repente, soa o telefone. O meu ou o dele? A pergunta ficava por breves momentos sem resposta, o som continuando a avisar que não se tratava de engano, era com a gente mesmo.

Todos sabiam o que diria esse telefonema. Se você fosse um funcionário médio, por exemplo, a ordem era para dar uma chegadinha no Departamento de Pessoal (hoje deve ter outro nome). Se tivesse prestígio, o pedido era para passar na sala de um diretor. Você já saia da sua sala em companhia do passaralho, que estava ali na sua porta como o pássaro sinistro diante da janela do poeta. Normalmente, quem saia da sala raramente voltava. Talvez no dia seguinte para pegar suas coisas.

O telefone deu o recado e era para o meu amigo. Não sei por que ligaram para o meu aparelho se queriam falar com ele. O passaralho exibia às vezes requintes de tortura. Meu amigo mostrou que não tinha intenção de voltar mais. Lentamente se levantou, começou a limpar a mesa de canetas, alguns livros, fotografias fixadas na parede, tudo o que era pessoal. Deu uma última tragada no cigarro, que apagou sem pressa, vestiu o elegante paletó, naquele tempo ainda se trabalhava de paletó e gravata, e saiu sem sequer me olhar. Só o vi muitos dias depois.

Toda essa evocação do dia em que vivenciei a passagem do passaralho aqui na terra é só pra dizer que ele está vivo e solto no futebol brasileiro, na área dos treinadores. Já passou pelo Corinthians, esteve por São Januário e por General Severiano, bateu suas escuras asas sobre os campos de treinamento vizinhos de Palmeiras e São Paulo... Parecia que ia pegar um, mas pegou o outro.

Ninguém está seguro, o passaralho anda por aí e é caprichoso. Muita gente está já olhando o telefone esperando sua vez. Passou a fase em que era apenas um assunto que preocupava todos na hora do almoço. Agora o passaralho chegou.

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