Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

O pênalti, o gol e o choro

Lágrimas no meio do gramado após a vitória por 2 a 0. Quem entendeu aquele choro? Quem não pensou em Thiago Silva em 2014?

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 04h00

Entro de sola no assunto Neymar nesta sofrida partida contra a Costa Rica até os 90 minutos - os gols, como todos sabem, foram marcados nos acréscimos. Peço ao leitor licença para entrar na cabeça do atacante brasileiro e tentar, se possível, pensar como ele, mesmo que por apenas o tempo de escrever essas linhas. Divido sua atuação em São Petersburgo em três partes, que batizam essa coluna. 

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O pênalti. Neymar teve a chance de concluir a gol, mas mostrou desequilíbrio na jogada, se valeu do toque do marcador dentro da área para desmoronar em campo. Cair tem sido uma de suas armas para conseguir as faltas e as vantagens. Não é enganar o árbitro. É tentar convencê-lo, por tombos e atiradas ao chão, de que sofreu a infração. Portanto, pênalti. Ocorre que Neymar, jogador do mundo, é marcado sim pela arbitragem. Juiz também estuda jogador, suas manhas e manias. E Neymar paga por isso. Fosse outro o jogador brasileiro a sofrer a falta, a turma do VAR poderia ter relevado. Digo poderia porque não sei. O fato é que o árbitro holandês marcou e o VAR o convenceu a desmarcar o pênalti. Neymar então enlouqueceu, xingou, se revoltou e tomou o cartão amarelo de graça, sem entender que agora ficará três partidas pendurados, até semifinal se a seleção brasileira chegar lá na Copa da Rússia.

O gol. Neymar, como todos os brasileiros, pensou que o Brasil amargaria outro empate e deixaria sua condição no Mundial muito difícil. Até que Philippe Coutinho voltou a dar o ar de sua graça, como fez diante da Suíça, para acabar com o sofrimento de todos, do País e do time de Tite. Depois disso, Neymar se transformou. Passou a jogar o que deveria ter jogado antes, com mais confiança e liberdade, sem mais aquela pressão da vitória. Abusou como é do seu perfil. Imaginou, imagino, ser hora de aparecer. Mas como? Fazendo das suas peripécias com a bola para o mundo ver, e aplaudir, como a lambreta, outros dizem carretilha, dada no marcador costa-riquenho sem nenhuma necessidade, para humilhar e ser focalizado, sem objetividade ao futebol. Fez porque é isso que gosta de fazer e é isso que também o motiva e o faz diferente, para o bem e para o mal, de outros. No último suspiro, seu primeiro gol. Mais um na seleção brasileira. Seu quinto gol em Mundiais - ele marcou quatro vezes em 2014, no Brasil.

O choro. Talvez essa seja a cena mais perturbadora de toda a atuação de Neymar nesta Copa. Lágrimas no meio do gramado após a vitória por 2 a 0. Quem entendeu aquele choro? Quem não pensou em Thiago Silva em 2014? Quem não levou as mãos ao céu por desconfiar? Seria para agradecer a volta da vitória? Foi um choro de quem passou tudo o que ele passou para estar na competição? Só Neymar poderá responder a essa pergunta lá na frente, quando tudo estiver mais distante de sua realidade. Não me convenci de seus comentários nas redes sociais. Mesmo sendo o jogador de carne e osso como todos nós. Neymar chorou por ele ou pela seleção? 

 

Talvez nada disso importará lá na frente, quando o Brasil acertar seu caminho e avançar às próximas fases. Precisa ainda de mais um ponto contra a Sérvia, rival na última e terceira partida da primeira etapa, que vem para o tudo ou nada contra a seleção, pois soma três pontos contra os quatro do time de Tite.

*ROBSON MORELLI É EDITOR DE ESPORTES DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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