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O poder da escolha

O que torna a seleção brasileira diferente é o poder da escolha, a possibilidade de trazer os melhores jogadores e encaixá-los no modelo de jogo idealizado pelo treinador, constituído por princípios ofensivos e defensivos que todos os “professores” deveriam dominar.

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 03h00

São movimentos, mecanismos e automatismos desenvolvidos com e sem a bola, em todas as fases da partida. É aquilo que identifica uma equipe, facilita o rendimento e seu entendimento, fácil de enxergar por olhos bem treinados, mesmo quando o padrão ainda está em construção.

Trata-se de um conteúdo amplamente conhecido pelos jogadores que atuam foram do País, o que torna intrigante o baixo nível coletivo do time de Dunga. Por mais que o treinador falhe nesses conceitos e que o tempo seja curto para trabalhar, o grupo sabe muito bem o que fazer para evitar algumas mancadas táticas. 

David Luiz, por exemplo, não deveria implodir sua linha de marcação. Mais uma vez saiu para o bote e deixou espaço para a Argentina abrir o placar. Faltou compactação defensiva, havia latifúndios entre defesa, meio de campo e ataque. 

Mas o que explica Neymar isolado no lado esquerdo, setor em que a bola circulou com dificuldade? Para Dunga, seu principal jogador atuou coletivamente. Esqueça.

Com Mascherano, Biglia e Banega, além da movimentação de Lavezzi e Di Maria, os argentinos tinham força no meio de campo, mas não um talento como Lucas Lima, que passou muito tempo esperando que Elias fizesse o que faz no Corinthians. 

O volante corintiano brilha porque se infiltra, não por conduzir a bola quando sua equipe ruma para o ataque. Essa tarefa é de Renato Augusto, que melhorou o comportamento do colega quando entrou na segunda etapa, período em que um pedaço do modelo de jogo do Corinthians ajudou a seleção brasileira. 

Não adianta escalar Elias para fazer diferente do que faz no clube. Poucos são bons fazendo qualquer coisa, a maioria precisa de um enquadramento já exercitado. E de um comandante que saiba identificar o problema e ensinar a solução. O primeiro tempo, com 58% da bola disponível e nenhuma finalização certa, simboliza a posse inócua, sem dano ao adversário.

É estranho ver Neymar, arrebentando no Barcelona, murcho no lado esquerdo do campo do Brasil. Melhorou quando Douglas Costa entrou na vaga de Ricardo Oliveira e o libertou da prisão, mas no geral foi uma atuação apagada contra um adversário fragmentado e preocupado. 

Penúltima colocada nas Eliminatórias, a Argentina é um perigo. Perigo de nos convencer que a fase é mesmo ruim para todo mundo. Não é verdade. A seleção brasileira foi escalada para vencer o jogo em Buenos Aires, mas não foi preparada para a missão.

Não basta escolher os jogadores e definir um sistema tático, é preciso organização. É óbvio que falta tempo, tempo que quase arruinou Tata Martino, obrigado a solucionar problemas muito mais graves, os desfalques de Messi, Agüero, Zabaleta, Garay, Tevez e Pastore. 

Falta conteúdo ao time nacional. Faz tempo que procuramos respostas. Antes mesmo do nocaute na Copa do Mundo de 2014, paramos diante da encruzilhada técnica para observar os defeitos.

A Copa das Confederações foi um alento, o Mundial uma inesquecível tragédia. A solução dos problemas seguiu a manjadíssima ladainha do respeito ao passado glorioso. Foi o argumento utilizado por Marin e Del Nero para trocar Mano Menezes por Felipão e Parreira. 

Não faltam nomes nem conquistas ao Brasil, faltam conceitos, ideias e conhecimento para fazer a roda girar. Pode parecer vago, modismo ou mesmo frescura semântica diante de algo que parece muito simples, mas lamentavelmente a saída não é tão inocente assim.

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