O poder dos agentes de jogadores de futebol só cresce no Brasil

Lei da oferta e procura e falta de transparência nas transferências ajuda os empresários a encher o bolso

Daniel Batista e Gonçalo Júnior, O Estado de S. Paulo

21 de abril de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Arrumar uma namorada, levar o filho na escola, fazer a declaração do Imposto de Renda, levantar as estatísticas das partidas, procurar casa para morar, escolher um time e dar conselhos são algumas das atividades mais comuns que os empresários fazem hoje pelos jogadores que representam.

Essa conveniência tem seu preço. O Regulamento dos Agentes da Fifa não estipula um teto para a comissão dos agentes no momento de uma transferência, mas sugere que seja de 3% do salário a ser recebido. A lei do mercado é outra. O agente recebe também um porcentual no momento da renovação com o clube. "Em geral, o valor é 10% do contrato do atleta, mas é a lei da oferta e da procura. Se o atleta é disputado por vários clubes, você acaba pagando mais", revela Guilherme Miranda, diretor da DIS, grupo empresarial que investe no futebol.

De comissão em comissão, os agentes estão enchendo o papo, que já está grande demais aos olhos da Fifa. Levantamento da entidade mostra que 28% do dinheiro movimentado nas 11,5 mil transferências de 2012 no mercado europeu acabaram nas mãos da categoria. Para conter essa sangria desatada, todos os clubes - vendedores e compradores - são obrigados desde 2011 a preencher o TMS (Transfer Match System) em cada transferência internacional. Estão lá dados pessoais do jogador, valores da transferência e, principalmente, a comissão dos agentes.

É um passo para a transparência no pagamento das comissões, mas o problema é que apenas 30% dos agentes são licenciados e têm suas comissões no sistema. Os outros 70% não aparecem nas transferências simplesmente porque os clubes omitem (a Fifa proíbe uma transação com agentes não licenciados). É uma espécie de mercado informal, uma Rua 25 de Março invisível para o sistema. É aí que cresce o poder dos empresários, simbolizado pelos 10% de comissão. "Quando o clube realmente quer um atleta, faz qualquer loucura", diz Guilherme Miranda.

CAMINHO DAS PEDRAS

Jorge Moraes, presidente da Associação Brasileira dos Agentes de Futebol, explica que não é difícil se tornar agente. Basta passar em uma prova objetiva sobre legislação desportiva internacional e nacional na sede da CBF. Pelos números, os interessados não têm se esforçado. Na última prova, de 400 candidatos, menos de 30 foram aprovados. Os outros caminhos reconhecidos pela Fifa para ser agente são concluir um curso de Direito ou ser parente de um craque.

Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo, mostra que o número de agentes licenciados está caindo no Brasil. "Atualmente são 268 registrados, mas o número já foi de 500." A Itália tem sete vezes mais agentes (1058) e a Espanha tem o dobro (575). Paralelamente, aumenta o número de agentes informais. Ou seja: o calabouço que não aparece nas estatísticas só aumenta.

Carlezzo aponta dois fatores para esse processo: o primeiro foi uma postura ambígua da Fifa, que até anos atrás acenava com a desregulamentação total da ação do agente. O segundo fator foi a obrigatoriedade da renovação da licença do agente no mercado brasileiro a cada cinco anos instituída em 2008. Medida que não pegou no mercado...

O empresário Gilmar Rinaldi está tão desiludido com esse quadro que está abandonando a profissão. Afirma que não vai agenciar novos jogadores além dos cinco que representa, entre eles André Dias e Fábio Santos. "Todo mundo quer ser agente. Isso é péssimo para o mercado. Um agente não precisa fazer tudo, mas só aquilo que está no contrato. Tem de ser profissional."

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