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O pós-guerra

Brasil x Uruguai se transformou num jogo pacífico, disputado com lealdade e espírito cívico

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2017 | 06h00

Brasil x Uruguai sempre foi um jogo tenso, para dizer o mínimo. Na maioria das vezes foi violento e em algumas registrou batalhas memoráveis, como no Sul-Americano de 1959, em Buenos Aires, quando todos os jogadores, incluindo os do banco, massagistas, preparadores físicos e o diabo se engalfinharam em campo numa briga generalizada que ficou para a história. 

Pois bem, 1959 está muito longe e, hoje, as coisas são outras. Não há mais nenhuma tensão anormal nesse clássico. A julgar pelo jogo de quinta-feira, transformou-se num jogo pacífico, disputado com toda lealdade e espírito cívico. A mim, velho torcedor de outros tempos, me assombra ver o Uruguai perder de quatro, em pleno Centenário, e aceitar sem criar um único problema, sem uma reles expulsão, sem reclamação alguma. 

Mesmo a torcida, nunca tinha visto abandonar o Centenário bem antes do fim da partida, no conhecido atestado que as multidões emitem quando tudo está perdido e já não há nada a fazer. Nem distribuir botinadas.

Qual é a razão de tão grande mudança? Por um lado a televisão, com sua profusão de câmeras que denunciam qualquer movimento estranho, qualquer desvio, qualquer reação pouco correta que se dê dentro da “cancha”. Mas acho pouco, acho que tem mais, talvez o fato de que jogadores não joguem mais em seus países e representá-los é mais uma obrigação, ritual automático, do que verdadeiro desejo.

Certamente a tensão é diminuída, pois, na verdade, se há uma divisão clara entre os países, a linha divisória é muito mais turva entre jogadores que se misturam nos mesmos clubes europeus. A maioria desses jogadores ou já jogou junto ou já jogou contra, o que equivale quase à mesma coisa.

Não é possível abraços e beijos na Europa e pancadaria aqui na América. Uma dividida entre Neymar e Suárez, caso este tivesse jogado, não seria a mesma, mesmo se, ao menos, jogassem em clubes diferentes na Europa. Mas os dois são colegas de equipe, podem ter se encontrado em Montevidéu depois do jogo e, quem sabe, tomado alguma coisa num bar de Pocitos.

Essa mudança tem um grande papel na transformação desses jogos. Foi a Europa que mudou brasileiros e uruguaios, que amansou os espíritos e transformou rivalidade em amizade.

Entretanto, há, creio, uma outra razão de mudança, também ligada à Europa, mas por outros motivos. A razão é a sobrevivência numa terra estrangeira e o laço que se estabelece entre pessoas que têm em comum a discriminação que sofrem. 

Jogadores sul-americanos, mesmo que admirados, são sempre vistos como inferiores humanamente, num continente especialista em preconceito racial. Negros, índios, mulatos da América do Sul, arrisco dizer que tendem a se agrupar em seus clubes porque defendem território comum. O tipo físico do brasileiro não é muito diferente do uruguaio, do argentino e do chileno, para não falar do paraguaio, cheios de representantes de uma ancestralidade suspeita aos olhos europeus. 

Acredito que esses grupos étnicos da América do Sul se agrupam, até por instinto, para repartir entre si as agruras, angustias e apreensões de um exílio, ainda que dourado. Uma união de resistência se forma, amizades nascem pela origem em comum e assim muito da rivalidade que havia se dissolve na necessidade de enfrentar uma terra estranha.

Os velhos Brasil x Uruguai só aconteciam quando os jogadores, salvo as exceções costumeiras, não se conheciam nem se falavam a não ser em campo, quando se ofendiam mutuamente. Hoje os tempos são de paz, de pós-guerra. A rivalidade agora se dá aqui dentro, nos clássicos locais, onde ninguém se une a ninguém para defender o que quer que seja.

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