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O que acontece?

Por que um time que vai à final de um campeonato é chamado de 'sem vergonha' ao perder a disputa?

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2017 | 03h00

Provavelmente vivemos no único país do mundo no qual um time disputa a final de um campeonato, ou seja, considerado um dos dois melhores times do torneio e, ao perder, é chamado, em coro, de “time sem vergonha” e “time vagabundo” pela sua própria torcida. É claro que estou me referindo a Flamengo e Independiente, no Maracanã.

O que está acontecendo? Pra que ir ao jogo se só se aceita um resultado? Se está excluída de antemão qualquer possibilidade de derrota? Como é possível iludir-se dessa maneira desconhecendo olimpicamente o adversário, seja ele qual for? Todo mundo sabe quem é o Independiente. Toda a crônica esportiva brasileira não cessou de informar que, embora debilitado nos últimos anos, o Independiente é o maior vencedor de Libertadores entre todos os times que disputam ou disputaram o torneio. Foi também campeão da Sul-Americana e da Recopa Sul-Americana. Esse passado tem de dizer alguma coisa, teria de ser um aviso. Isso foi divulgado, não ouviu quem não quis ouvir ou quem se recusa a ouvir.

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Confundiram, deliberadamente ou não, Independiente com Lanús. O primeiro jogo em Avellaneda não serviu para nada. Só se falou que o Flamengo fez um ótimo primeiro tempo e foi vencido, talvez porque é muito difícil jogar contra o Independiente em seu estádio, contra sua enlouquecida torcida. Há alguma verdade nisso, mas gente com a cabeça no lugar, como o zagueiro Juan ou o treinador Rueda, ainda no gramado depois do jogo, deixou claro os méritos do adversário: seu toque de bola refinado, sua frieza diante de um placar adverso, seu sistema de jogo de chegar ao gol adversário, não por meio de cruzamentos altos, mas em contra-ataques organizados. Enfim, o que todo mundo viu.

Os dias subsequentes à primeira partida fizeram muito mal ao Flamengo. O tempo trabalhou contra o time porque tudo o que foi visto na Argentina pouco a pouco começou a perder força para uma euforia que só via os números. Com um gol, empate e pênaltis. Com dois gols, vitória; fácil assim. A torcida iria fazer sua parte, isto é, fazer o que a torcida do Independiente faz em seu estádio e, finalmente, como o Flamengo é possivelmente o clube que “mais investiu no time este ano”, não poderia ser outro o resultado senão a vitória.

Saiu tudo ao contrário, menos a loucura de parte da torcida, comportamento, aliás, que merece comentário. Um olhar para a torcida argentina revela que, sim, há rostos contraídos, há urros por ocasião dos gols, há angustia, mas raramente desespero, pessoas chorando quando o jogo está ainda zero a zero, mãos postas erguidas para os céus, sinais da cruz em profusão.

A torcida argentina dá a impressão de desempenhar um papel e saber que papel é esse. Como o time em campo. Não se assustaram com o Maracanã como algum ingênuo ainda espera, jogaram seu jogo de cabeça fria, visando o resultado que queriam – houve empate. Donos de seus nervos.

A prova disso é que um menino de 18 anos cobrou o pênalti que lhes deu o título, diante de 60 mil torcedores do Flamengo, com calma e categoria. No final, uma demonstração do que há de pior na sociedade brasileira neste momento: a violência, o ódio e a revolta contra seu próprio time, ao qual se pode perdoar tudo, menos perder. Essa violência, que, aliás, já tinha se manifestado de todas as formas possíveis antes do jogo, diante de hotéis, e na entrada do estádio, se estendeu aos jogadores. No fim completou sua ação atacando a própria equipe.

Um time que não jogou mal, sobretudo que enfrentou dignamente um adversário também capaz, um time que poderia também ter conquistado o título, pois futebol é um jogo no qual se misturam muitos fatores para a vitória. O Flamengo não é um time sem vergonha. 

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