Paulo Liebert/Estadão
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O que aconteceu ontem

Palmeiras e Santos fazem reviver o que de melhor houve no futebol de São Paulo

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2019 | 04h00

Escrevo às sextas e no sábado jogaram Palmeiras x Santos. Você, portanto, já sabe o que aconteceu, eu não. É sempre um prazer quando se enfrentam Palmeiras e Santos, pois fazem reviver o que de melhor houve na história do futebol de São Paulo. Mesmo nos dias de glória de Pelé e companhia era o Palmeiras o único a fazer frente ao Santos e interromper suas conquistas quase habituais. O jogo de ontem não deveria ter tanta importância, já que não há torneio em jogo, mas oferece interesse grande que reside nas diferenças entre os times e seus diferentes modos de atuar. E, no limite, dois técnicos que não abandonam suas ideias custe a eles o que custar.

De um lado um Palmeiras no legítimo e imutável estilo Felipão. Não gosto nem admiro esse estilo, nem sequer os métodos de quem o aplica, mas ele está aí e é eficiente. Trata-se de uma defesa bem organizada a partir de um goleiro seguro, zagueiros técnicos e confiáveis, protegidos por um meio-campo inteligente e por atacantes que recuam. Desse modo torna-se difícil fazer gol no Palmeiras. De quebra completa-se o time com atletas velozes que partem sobre o rival a partir da menor falha e da menor hesitação.

A defesa do Palmeiras não pode errar, mas o adversário também não. Apesar de não ser da minha predileção, admito que há beleza na defesa. A Itália foi campeã do mundo várias vezes a partir de verdadeiros craques na zaga.

Jorge Sampaoli, por sua vez, com alguns cuidados, vai jogar, ou talvez jogou, como sempre joga seu Santos. Agredindo em velocidade, trocando passes curtos e certeiros, dribles e trocas constantes de posição entre os atletas de ataque. É muito bonito esse tipo de jogo que tende a empolgar sua torcida, aliás, ausente no Allianz Parque.

A favor de Sampaoli é importante dizer que nem de longe conta com investimento parecido com o do Palmeiras. Ao contrário, seu time perdeu jogadores importantes antes de sua chegada.

Não sei como ele reinventou gente que não tinha nenhum destaque, trouxe outros sabe lá de onde, ficou com remanescentes que cresceram, e o Santos aí está. Não tem medo de time algum nem de jogar o que pede seu treinador. O único clube que se aproxima do Santos em estilo e forma de jogar é o Fluminense de Fernando Diniz, que realiza também um excelente trabalho com menos recursos ainda do que Sampaoli. Esses times são sempre ameaçados durante as partidas. Sabem disso e assumem os riscos de suas formas de jogar. Para seus sucessos é importante que as torcidas comprem também esse estilo, saibam que implica em que um jogo pode ser perdido. 

Um jogo pode ser perdido, uma maneira de jogar não. Num certo sentido, o mesmo vale para o Palmeiras. A torcida ao mesmo tempo ama e condena Felipão. Frequentemente sua maneira é contestada e protestos existem, como aconteceu recentemente. Esse é o risco que Felipão corre: desgastar-se diante da torcida não pelas derrotas, raras, mas pelas vitórias.

Também é uma injustiça. Todos conheciam Felipão. É um veterano que não quer, nem pode, esconder, depois de tantos anos, como encara o futebol. Cabe à torcida examinar o time, se possível sem paixão, não compará-lo com antigas academias de craques, e futebol irresistível.

Lembrar, ao contrário, que, por exemplo, entre a Academia dos anos 60 e a dos anos 70, houve intervalos onde o Palmeiras jogou, sob Rubens Minelli, entre outros, no mesmo estilo que joga hoje sob Felipão. E ganhava, como agora. Talvez seja possível descobrir beleza nesse estilo calculista, traiçoeiro, enganosamente defensivo, que não dispensa o craque e que, de vez em quando, produz grande jogada de ataque. Por isso me pergunto: o que aconteceu ontem? Aliás, houve jogo? O tempo neste País é de surpresas diárias.

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