Alex Silva / Estadão
Alex Silva / Estadão

O que esperar de Fernando Diniz no Santos?

Treinador chega com grande fardo a clube em momento complicado no Campeonato Paulista e na Libertadores

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 16h00

A chegada de Fernando Diniz ao Santos ainda é um ponto de interrogação para o torcedor. O que esperar do treinador na Vila Belmiro? Essa pergunta é feita pelos santistas desde que a diretoria anunciou o acerto com o técnico por uma temporada, sem multa rescisória, até dezembro. Vale lembrar que nesta temporada do Campeonato Brasileiro, que começa no fim deste mês, os clubes poderão trocar de comando apenas uma vez para poder contratar outro. Ou seja, Diniz terá de fazer um bom trabalho para não deixar seu empregador na mão nesse sentido. Precisa ainda do apoio de todos na Vila.

Desempregado desde fevereiro, quando foi demitido do São Paulo, Diniz amargou um período de muitas criticas no clube do Morumbi. Jamais teve paz com a torcida e nunca foi unanimidade com os cardeais. Era frequente o diretor de futebol Raí sair em sua defesa após derrotas ou eliminações de campeonatos. Ele sempre esteve na corda bamba. Nos melhores momentos do time, seu trabalho era abafado pelas atuações dos jogadores ou fragilidade dos rivais.

Dentro de campo, tinha o carinho dos atletas, pelo menos de alguns. Daniel Alves chegou a dizer numa entrevista ao The Guardian, da Inglaterra, que Fernando Diniz está à frente do seu tempo no futebol brasileiro, "que virou um cemitério de jogadores e de treinadores". No Santos, ele chega com a imagem que deixou no São Paulo.

O treinador defende o toque de bola desde a saída com o goleiro. Para ele, o camisa 1 precisa saber trabalhar com os pés. Chutões somente quando não tiver outro recurso. A triangulação no meio ou em qualquer setor do campo é fundamental. Ele não gosta de atacar com velocidade. Gosta de passes curtos. Prefere chegar ao gol do rival construindo as jogadas, tramando movimentação. O que sempre se cobrou dele é saber usar os jogadores dentro de suas características. Há, por exemplo, goleiro que não sabe atuar com os pés. Se estivesse indo para o Corinthians, teria problemas com Cássio, por exemplo.

À beira do gramado, com as roupas do clube, desprovido de qualquer elegância, Diniz fala o tempo todo, grita com os jogadores como se não tivesse treinado nada no meio da semana, não para um só instante de passar orientações e de dar ordens, entre caras e bocas, durante os 90 minutos. É adepto do uso do boné enterrado na cabeça. Pegou mal ele brigar com Tchê Tchê. Perdeu o grupo neste episódio.

Chega para comandar um elenco sem confiança, ameaçado de ser rebaixado no Campeonato Paulista, com dificuldade na Libertadores e com muito medo no Brasileirão, que leva os quatro piores para a Série B onde já estão Botafogo, Vasco e Cruzeiro. Diniz já tenta neste domingo evitar a queda do time para a Série A2 do Estadual. Tem dez pontos, uma das pires campanhas do torneio. Mas não deve ficar no banco.

No vestiário, vai encontrar uma mescla de jogadores. Alguns renomados, como o atacante Marinho e Sánchez, ainda em fase de retorno após contusão séria que o deixou afastado por um ano, e outros nem tanto, como o esforçado Pará, Madson, Alison, Felipe Jonatan e Jean Mota. Todos são atletas que estão na Vila há algum tempo e poderão ajudar Diniz em sua empreitada. Há ainda os pratas da casa, os garotos que pedem passagem, como Kaio Jorge, Lucas Braga, Ângelo, Kaiky e Gabriel Pirani. 

O novo treinador não terá reforços, excetos alguns pontuais quando a Fifa der sinal verde pela pendência financeira envolvendo Soteldo, que já foi vendido. Diniz terá de apostar em Marinho e Alison como seus representantes no elenco. Marinho não está bem. Fisicamente, depois da covid, joga mal e se machuca com mais frequência. Mas ainda será o princpal cara do Santos pela direita. Diniz deve formar o time em função dele.

No gol, nenhum dos goleiros tem habilidade para atuar com os pés. Nem João Paulo nem Vladimir nem John. É um problema, cuja saída é contratar outro atleta para a posição ou abrir mão da estratégia do treinador. Diniz sabe que quando toca a bola na sua área, atrai a marcação e abre espaço para golpear. Isso é treino. Não vai acontecer de uma hora para outra. Esse tempo treinador nenhum no Brasil tem. Diniz também não terá.

Trabalhar com a base é condição básica atualmente no futebol brasileiro. E nesse quesito, Fernando Diniz tem um prato cheio. Ele aprova esses garotos que estão no time e da movimentação de todos em campo. Não seria surpresa se o treinador formasse um meio que girasse muito e fizesse a bola girar também. Ele não vai parar esses moleques. Ocorre que já sabe que vai perder atletas no meio do caminho. Vai colocar os garotos na vitrine para que eles sejam vendidos. O Santos precisa de dinheiro.

Ele conta ainda com o respaldo da diretoria. Espera-se. E precisa disso. Leva com ele um trabalho questionável, com aproveitamento na casa dos 50% para baixo nos clubes que defendeu, como Athletico-PR e Fluminense, e mesmo no São Paulo, com 52%. Não se trata de um treinador ruim, mas de um profissional que carrega um fardo muito grande nas costas. Isso o tem atrapalhado.

O Santos de Diniz vai ficar com a bola. Ele monta times vistosos, mas que correm riscos. Pilha demais o elenco à beira do campo. Tem de corrigir rotas e rever, se preciso, algumas ideias por causa do elenco mais modesto e ainda em formação. Ele não deve comandar o time domingo, mas já anda falando com o interino Marcelo Fernandes.

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