Paulo Liebert/Estadão
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O que fazer?

Salvo exceções, não reconheço mais, pelo estilo, jogadores genuinamente brasileiros

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h00

Como recuperar o futebol brasileiro? Ninguém sabe. Há explicações de todos os tipos e para todos os gostos. Elas vêm se repetindo ano após ano e provam sua inutilidade ao vermos que continuamos afundando no mais lento e implacável naufrágio da história do esporte mundial. Não vou tentar eu mesmo explicações cansativas. Como a maioria, talvez por cansaço, me limito a olhar. Tivemos exemplos que falam por si. O São Paulo foi desclassificado da Libertadores pelo Talleres de Córdoba no Morumbi e o Corinthians quase foi a nocaute também em seu estádio de Itaquera contra o Racing. O que vi em campo era algo quase inacreditável.

Isto é, reconhecer o futebol do time estrangeiro e não reconhecer o nosso, dos nossos times, como se nunca o tivesse visto. Não foram as derrotas dos brasileiros que me entristeceram, já que derrota nem houve. Na verdade empataram. Achava que podia reconhecer o tipo de jogo praticado no Brasil, mesmo que não reconhecesse as camisas de quem estava em campo.

Tão arraigado estava na minha mente um tipo de jogar futebol que podia reconhecê-lo em pouco tempo e em qualquer parte. Podia jurar que era brasileiro um jogador que nunca tinha visto antes. Há muitos anos, num jogo que via do Campeonato Italiano, percebi na Fiorentina um jogador que imediatamente me revelou em apenas um toque na bola que eu estava diante de um brasileiro. E era. O único que me trazia nosso jeito familiar até de andar.

O que me constrange é ser obrigado a ver isso em outros times de outros países. Por exemplo, em atletas do Talleres e do Racing. São jogadores de um país que, como o nosso, é hoje privado de seus ídolos e revelações, despovoado futebolisticamente pela ação dos países ricos. No entanto, posso reconhecer no meio de todas essas dificuldades o futebol argentino intacto, que sempre vi. Posso ver as raízes, posso sentir presente a tradição que aprendi a admirar ainda criança da bola tocada, do passe na hora certa, da beleza das triangulações, da frieza e da confiança.

O que não reconheço mais são os jogadores brasileiros, salvo exceções.

Não é possível que aquele bando de gente desajeitada que se movia pelo campo pesadamente, que levantava bolas na área sem cessar, que rezava por uma bola parada, que não tinha um único atacante com talento que lembrasse jogadores de São Paulo e Corinthians de outros tempos – que piedosamente vou me recusar a identificar para não matar muita gente de tristeza – era um time brasileiro.

Pessoas da minha geração, ou perto, podem nomear centenas e centenas desses grandes jogadores. O que aconteceu? O que houve? Até a atitude dos rivais atesta nossa decadência. A violência e catimba dos estrangeiros não acabou porque ficaram mais educados ou civilizados. Acabou porque não mais precisam delas. Não têm mais medo dos brasileiros. Vêm aqui confiantes ao extremo, inclusive a torcida. Ouvi cantoria argentina nos dois estádios lotados quase que só por brasileiros calados. Calados porque viam o que estava acontecendo.

Para reiterar essa nenhuma necessidade mais de haver brigas e confusões para ganhar um jogo, a delegação do Talleres, de Córdoba, a conhecida cidade rebelde, famosa pelo “cordobazo” que fez tremer a Argentina, deixou o vestiário do Morumbi impecavelmente limpo e perfumado como se ali tivesse acabado de jogar um time da Coreia do Sul ou do Japão. Além disso, num remate de finíssima ironia argentina, deixou um presente inesquecível para os anfitriões. Um livro que conta a biografia do Talleres. Vai chegar um dia em que se sentirão tão confiantes que o River pode chegar trazendo consigo para deixar de presente no vestiário do Palmeiras as Obras Completas de Jorge Luis Borges.

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