Fredy Builes|Reuters
Fredy Builes|Reuters

O que os investigadores sabem sobre a queda do voo em Medellín

Causa do acidente que matou 71 pessoas na Colômbia está sendo investigada

Luiz Fernando Toledo e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 06h00

1. Qual a causa do acidente?

Ainda não se sabe os fatores que contribuíram para o acidente. As informações das autoridades na Colômbia mostram que havia mau tempo no momento em que o avião chegaria ao aeroporto. Duas possibilidades são discutidas por investigadores: a ocorrência de problemas elétricos e uma pane seca. O site Flight Radar 24, que mostra o tráfego das aeronaves, aponta que o avião de prefixo CP-2933 da LaMia deu duas voltas antes de reduzir a velocidade a 263 quilômetros por hora. O percurso é considerado normal, principalmente em situações de baixa visibilidade. 

2. Por que a ANAC vetou o voo que partiria do Brasil? 

O Código Brasileiro de Aeronáutica e a Convenção de Chicago, que trata dos acordos de serviços aéreos entre os países, determinam que o transporte poderia ser realizado por empresa aérea da origem (Brasil) ou do destino (Colômbia) e não por uma de uma terceiro país. 

3. As caixas-pretas já foram localizadas? 

Sim, pela Aeronáutica Civil da Colômbia. As duas caixas-pretas foram encontradas – de voz e de dados. A Voice Data Recorder registra as conversas na cabine da aeronave e podem ajudar a entender o que ocorreu momentos antes do acidente. Já a Flight Data Recorder guarda os dados técnicos da aeronave. 

4. O modelo do avião já registrou algum acidente? 

Sim. De acordo com o site de aviação Airsafe.com, a série RJ produzida pela BAe Systems (100, 146 e 85) registrou 7 quedas. A mais recente ocorreu em 10 de outubro de 2006, na Noruega. O avião fretado estava em voo doméstico de Stavanger para Stord. Ao chegar próximo do destino, a aeronave não conseguiu parar e invadiu a pista, continuou por uma encosta e pegou fogo. Treze pessoas morreram.

5. Houve falha elétrica? 

Essa é uma das possibilidades discutidas. De acordo com o diretor da Aeronáutica Civil da Colômbia, Alfredo Bocanegra, o piloto do RJ-85 “relatou falhas elétricas graves à torre de controle do aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia”.

6. Houve falta de combustível, a chamada “pane seca”?

Especialistas apontaram que o modelo padrão da aeronave não tinha originalmente autonomia suficiente para fazer o trajeto entre os aeroportos de Santa Cruz de La Sierra e ia para Medellín, mesmo em linha reta. A consultoria em aviação alemã Jacdec, com base na ficha técnica da fabricante, apontou que a distância máxima (autonomia) padrão do RJ85 que pode ser percorrida pelo modelo é de 1.600 milhas marítimas, equivalente a 2.965 quilômetros. Já a distância entre os aeroportos de ida e chegada é de 1.605 milhas – 2.975 quilômetros (em linha reta). O que ainda não se sabe é qual modelo pertencia à empresa venezuelana. O fabricante informa que há aviões do tipo com tanques auxiliares, o que garantiria a autonomia de voo da Bolívia para a Colômbia. O que não se sabe ainda é se houve problemas no abastecimento da aeronave. 

7. A velocidade de 262 km/h da aeronave momentos antes da queda era suficiente para dar sustentação para ao RJ85? 

Sim. De acordo com o último registro do voo que levava a Chapecoense para a Colômbia, o avião estava reduzindo sua velocidade – ela era de 680 km/h –, depois de começar os procedimentos para a aproximação e pouso da aeronave em Medellín. O RJ85 desceu de 9,1 mil metros para 4,5 mil metros, passando por nuvens mais baixas. De acordo com especialistas ouvidos pelo Estado, a partir de 180 quilômetros por hora já é possível ter estabilidade no voo. 

8. Por que a aeronave descreveu uma trajetória em círculos ao se aproximar do aeroporto?

As “voltas” são consideradas normais segundo as cartas de aproximação do aeroporto. É comum o piloto fazer essa manobra em caso de pouca visibilidade para pouso no aeroporto. No caso do RJ85, apesar da chuva fina, a visibilidade não era ruim no aeroporto de Medellín. Um segundo fator pode ter contribuído para que RJ85 fosse obrigado a fazer a manobra e permanecesse mais tempo na trajetória circular. É que outra aeronave, da companhia Viva Colômbia, que vinha da ilha de San Andres para Medellín, havia solicitado autorização para pouso emergencial por falta de combustível, no mesmo local minutos antes da chegada da aeronave venezuelana.

9. Houve derramamento de combustível pela aeronave antes da queda? 

Investigação inicial apontou que os corpos e destroços não têm sinal de combustível – o que pode reforçar a tese de pane seca. As autoridade colombianas investigam se houve perda de combustível, o que poderia ter esvaziado o tanque evitando assim que a aeronave explodisse no momento do impacto no chão.

10.As condições do tempo podem ter contribuído para o acidente?

Chovia no momento do acidente na região de Atioquia, estado colombiano cuja capital é Medellín. O tempo ruim é frequentemente apontado por investigadores aeronáuticos como uma dos principais fatores que contribuem para os acidentes aéreos. Esse é o caso Airbus A330 do voo AF447, da Air France, que caiu no meio do Oceano Atlântico, em 2009. No caso, além da chuva fina, o aeroporto de Medellín registrava temperatura de 17 C°, céu nublado, com nuvens baixas e visibilidade era boa. Havia, no entanto, potencial para raios. Os investigadores vão verificar se o mau tempo influiu na queda do RJ85.

11.O acidente pode ter sido causado por alguma falha humana?

Ainda é cedo para se responder a esse pergunta. Os investigadores vão verificar as gravações da caixa-preta (Voice Data Recorder) e cruzá-las com os dados técnicos do voo, que constam da outra caixa-preta (Flight Data Recorder). Assim pode reproduzir o que se passou dentro da cabine do RJ85 e verificar se algum problema técnico aconteceu e se a resposta dada pela tripulação a ele foi a mais correta. Também vai verificar se os pilotos tinham treinamento adequado para as situações enfrentadas no voo. 

12. Quais eram as condições da aeronave da empresa venezuelana LaMia? 

O avião prefixo CP2923 foi fabricado em 1999. Para o diretor da empresa venezuelana responsável pela aeronave, ela “não era nova, mas operável”. O modelo tem capacidade para cem pessoas, mas estava configurado para 85 a fim de garantir mais espaço entre as poltronas. Ele era usado em voos fretados. 

13.Em quanto tempo o motivo do acidente será esclarecido?

Não é possível prever. Em muitos casos não há nem sequer esclarecimento da causa, dependendo das condições e informações disponíveis. Neste caso, já que a caixa preta foi encontrada e há sobreviventes, mais informações poderão ser usadas no diagnóstico dos peritos. 

14.Quem ficará responsável pelas investigações? Haverá apoio internacional?

As autoridades colombianas pediram apoio de investigadores britânicos, já que o avião da LaMia foi fabricado no País pela companhia British Aerospace. Há cerca de 200 aeronaves do tipo em circulação no mundo. Os investigadores devem chegar hoje e terão mais informações sobre a fabricação do modelo que podem ajudar a identificar onde ocorreram as possíveis falhas. A fabricante ainda não se manifestou.

 

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