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O que queremos

Treinador civilizado, educado, adepto do diálogo, parece não ter vez no nosso futebol

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2017 | 04h01

Queremos renovação no futebol. Por isso anunciamos algum tempo atrás campanha contra gente como Felipão, Luxemburgo, Marcelo Oliveira, até Cuca, se não ganhasse tréguas merecidas por ter vencido o ultimo campeonato brasileiro. Saudamos efusivamente o aparecimento de uma geração nova de treinadores. Gente que expressava suas ideias com clareza, fazia o time jogar, conhecia tática, lia, estudava e discutia conceitos atualizados do futebol internacional.

Um ano depois, um aninho apenas, e quase nada resta dessa explosão juvenil. Nesta semana, caiu um dos últimos representantes desse time, Roger Machado. Na mesma noite, furiosos e descontrolados, torcedores do Flamengo exigiam a saída de Zé Ricardo, por causa do empate com o Palmeiras. Já haviam sido devidamente exterminados Rogério Ceni, Eduardo Baptista e até um treinador brasileiro, talvez único em sua espécie, com cursos feitos na Europa, como manda o figurino: Antonio Carlos Zago. Resta Carille, do Corinthians, inatingível enquanto estiver na liderança.

Tudo isso sob nossos olhos, diante de nós, que bradávamos tanto pela renovação e pouco pudemos fazer em defesa de qualquer um deles. Ao contrário, nos mantivemos entre indiferentes e francamente favoráveis à degola.

Esses jovens estão sendo paulatinamente substituídos pelos antigos ou quase antigos. Nos principais clubes do Brasil, ressurgem gloriosos e triunfantes. O São Paulo demitiu seu jovem treinador e trouxe para o lugar o “experiente” Dorival Junior. O Cruzeiro faz tempo tem Mano Menezes. O Sport brilha sob a regência de Vanderlei Luxemburgo. O simpático Levir Culpi se segura firmemente no Santos, enquanto Abel dá as cartas no Fluminense.

Se eu fosse Felipão, começava a arrumar as malas, pois seu regresso é não só previsível como lógico. Curiosamente, os treinadores que tombam, ou ameaçam tombar, têm em comum grande capacidade de dialogar, não só com subordinados, mas também com a imprensa. Se alongam em explicações, não cansam de tentar convencer pelo diálogo e mesmo pela educação.

Esse tipo de treinador civilizado parece não ter vez no nosso futebol, haja visto Oswaldo de Oliveira ou Falcão. Não que sejam rejeitados pelos jogadores, ao contrário. Ou porque falem linguagem que boleiro não entenda. Na verdade, são rejeitados por dirigentes. São esses que não aceitam a linguagem da inteligência e da urbanidade, que se sentem inferiores, e na verdade, salvo honrosas exceções, o são.

A tremenda insegurança, a falta de respeito ao ser humano, a solidão de alguém sempre acuado e que não tem para onde escapar são características da profissão de treinador. Eles, porem, que se consolem, ao menos ganham bem. O resto, a maioria de nós, enfrentamos tudo isso nessa sociedade e, às vezes, ainda por cima, ganhamos mal.

Esse sistema de vida como está constituído serve sobretudo para apagar o que resta de humano no cidadão. Passe pela Avenida Paulista aí pelas 8h30 da noite e veja quantas janelas ainda estão acesas nos escritórios. E note que há pessoas lá dentro. Trabalhando, se exaurindo, concorrendo com o colega ao lado, pedindo a Deus para segurar o emprego, exatamente como os treinadores. Isso para não falar em metrô lotado e trens com gente saindo pelas janelas. Do cidadão nada resta.

Essa semana, ouvi Paulo Autuori, realmente um homem civilizado, dizendo que um dos motivos que quase o fez retirar-se da vida de treinador era sua impossibilidade de continuar abrindo mão de ter vida pessoal, familiar ou de lazer. Lazer, para a maioria dos mortais, treinadores ou não, só quando desempregado.

Bom, comecei com um assunto e termino com outro. Coerência não é meu forte.

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