Alex Silva/Estadão
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'O racismo não vai acabar', diz mãe de Arouca

Dona Iolane teve um pressentimento de que seu filho seria alvo de insultos quando Tinga, do Cruzeiro, foi discriminado no Peru

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - A mãe do jogador Arouca, dona Iolane Aparecida Arouca, teve um pressentimento ruim quando o volante Tinga, do Cruzeiro, sofreu ofensas racistas no Peru, quase um mês atrás. “Na hora, pensei que ia acontecer com meu filho. Tive um estalo e cheguei a comentar isso com ele. Foi um pressentimento de mãe. E acabou acontecendo. Infelizmente. Eu e ele achamos que o racismo não vai acabar”, diz a mãe do jogador ao Estado.

No final da goleada do Santos sobre o Mogi Mirim, por 5 a 2, em Mogi, quando concedia entrevistas no gramado, o volante do Santos foi chamado de “macaco” por alguns torcedores do time da casa. Também disseram que ele deveria procurar uma seleção da África e não jogar na seleção brasileira.

Na hora, Arouca disse que não precisava responder às provocações, mas na madrugada desta sexta divulgou uma nota oficial de repúdio e ainda participou de dois vídeos divulgados pela emissora de tevê do Santos em que reafirma o orgulho de ser negro. Antes de gravá-lo, pediu conselhos à mãe sobre a mensagem que deveria transmitir. Ouviu da matriarca que não deveria criticar as pessoas, nem mostrar raiva. “Antes de ser atleta, sou ser humano, pai, marido, cidadão, carioca de origem e santista de coração. Tenho a pele negra, cabelo afro e visto o manto branco que vestiu o Rei Pelé. Carrego orgulho no peito e sou grato a Deus por tudo isso”, diz Arouca, no vídeo.

 

PUNIÇÃO

Embora o episódio tenha tido enorme repercussão – o Santos encaminhou pedido de abertura de inquérito à Federação Paulista de Futebol e o estádio do Mogi foi interditado –, a mãe de Arouca garante que o filho não vai se abater com o episódio. Ela conta que o jogador não chorou depois das ofensas. “Ele falou que precisamos estar preparados para isso por que o racismo não vai acabar tão cedo no Brasil. Ele não deu ouvido para isso. Não vai botar na cabeça”, diz a mãe do jogador, dona de casa que mora em Duas Barras, no Rio, terra natal do volante.

Apesar de acreditar que o caso não terá reflexos na continuidade da carreira, a mãe cobra punições não só para os torcedores que ofenderam o jogador, mas também para o clube. “Tem de haver punição para quem falou isso, mas também para o clube. A diretoria também é responsável por aquilo que acontece no seu estádio. Eles não podem tolerar esse tipo de comportamento.”

Esse foi o primeiro caso de racismo da vida de Arouca, incluindo a fase difícil no interior do Rio e a vitoriosa carreira de profissional. Longe de casa desde os 11 anos, correndo atrás da carreira de jogador, o menino deve ter escondido as situações difíceis. “A gente sabe que sempre acontece discriminação, principalmente entre as crianças, mas acho que ele quis me poupar e nunca contou nada”. Sua esposa e sua filha são negras.

No Santos, o período mais vitorioso, foi tricampeão paulista e levantou a taça da Libertadores em 2011. “Em todos esses clubes, o Arouca foi respeitado, nunca implicaram com a cor da pele. Será que os torcedores do Mogi Mirim querem que apenas os brancos joguem futebol? Também pode ser raiva. Eles levaram cinco gols e o Arouca fez um golaço”, avalia dona Iolane. “Não tem problema. Ele vai superar tudo isso e responder com outros gols”.

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