Divulgação/Genk
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O rio de dinheiro do futebol não está fluindo, preocupando as equipes 'rio abaixo'

Impacto econômico da pandemia do novo coronavírus já é sentido por alguns clubes menores da Europa

Rory Smith, The New York Times

06 de maio de 2020 | 17h00

Jonathan David já estava pensando no que poderia vir a seguir. Ele está na Bélgica há quase dois anos, seu primeiro contato com o futebol profissional na Europa desde que se mudou do Canadá. Ele havia cumprido todos os objetivos estabelecidos para si: ele era o artilheiro do K.A.A. Gent em sua primeira temporada e também foi o artilheiro de toda a liga belga em seu segundo ano.

"O Gent pediu a ele no ano passado para ficar por aqui e fortalecer o potencial que ele havia demonstrado", disse seu agente, Nick Mavromaras. "Ele fez isso. Ele provou que é hora de passar para o próximo nível."

O mundo estava girando a seu favor. David chamou a atenção de vários dos clubes mais prestigiados da Europa. Eles examinaram seus dados, estudaram vídeos de sua atuação e enviaram olheiros para observá-lo. Ele cumpria muitos requisitos: tinha acabado de completar 20 anos, jogou como atacante no Canadá, e foi um pouco além no Gent, um sinal de versatilidade preciosa; o número de gols marcados era impressionante.

Como Michel Louwagie, diretor do Gent, disse, ficou claro que David era "o jovem jogador número um na Bélgica". Isso tende a significar apenas uma coisa: uma disputa por sua contratação. A Bélgica é o tipo de lugar onde os maiores gastadores das grandes ligas vêm lançar suas redes. De comum acordo, este ano, David era o maior peixe a ser fisgado.

Antes do Natal, as investidas estavam se acumulando. O Gent, no entanto, permaneceu firme. Queria manter David até janeiro e, se possível, durante o verão europeu também. "Eu sempre disse não", disse Louwagie. "O plano normalmente seria para ele ficar mais um ano. Você sempre precisa levar em consideração os desejos do jogador, mas não precisamos do dinheiro."

Mavromaras e sua agência, Axía Sports Management, enquanto isso, estavam pesquisando cada um dos vários candidatos, tentando encontrar o pretendente ideal para David. Se recebesse uma oferta que fosse ok para o Gent, também teria que ser adequada para o cliente deles. Eles precisavam do treinador, do sistema e, acima de tudo, da oportunidade de se adaptar.

"Ele está consciente de que esta é apenas sua segunda temporada como profissional", disse Mavromaras. "Ele precisa jogar. Esse é o fator primário." Ele já havia identificado alguns clubes que se encaixavam no projeto..E então, é claro, tudo parou.

Ainda não está claro o efeito da parada indeterminada do futebol europeu diante da pandemia. Os clubes da Europa ainda não sabem quando ou se poderão jogar novamente. Até que o façam, eles só conseguem adivinhar quanta receita será perdida da venda de ingressos e das receitas de publicidade e de direitos de transmissão. Eles só conseguem imaginar o tamanho do prejuízo.

Para muitos fora das cinco grandes ligas do continente, porém, essa incerteza é agravada pela consciência de que eles não estão no controle de seus destinos, de que uma segunda crise paira no horizonte. Para esses clubes e ligas, a saúde financeira depende não apenas do retorno aos campos, assim que possível, mas do que acontece muito acima deles na cadeia alimentar.

Grande parte da economia mundial do futebol depende do mercado de transferências, que é impulsionado pela generosidade da elite rica da Europa. Todo o delicado ecossistema do futebol funciona, fora das principais ligas da Europa, como uma estrutura econômica indireta, dinheiro que flui da Alemanha e da Espanha e, em particular, da Inglaterra, por lugares como a Bélgica e outros países.

De acordo com números fornecidos pelo CIES Football Observatory, dificilmente é possível superestimar quanto o dinheiro da Premier League - ou, mais precisamente, as negociações entre televisões e a Premier League - faz o mundo do futebol girar.

Desde 2015, por exemplo, os clubes ingleses enviaram mais de US$ 1 bilhão em taxas de transferência para equipes somente na França. Cerca de US$ 464 milhões foram para apenas um clube: o AS Monaco. Outro bilhão acabou nos bolsos de apenas cinco clubes: Juventus, Borussia Dortmund, Roma, Barcelona e Sporting Clube de Portugal.

Os números são um pouco menores na Bélgica, mas, por outro lado, a dependência é maior. O K.R.C. Genk vendeu jogadores por US$ 88 milhões à Premier League nos últimos quatro anos: mais do que a liga como um todo obteve de receita televisiva em 2017. O Club Brugge - o time que foi coroado campeão quando a temporada belga foi cancelada em março - conseguiu US$ 61 milhões com a venda de três jogadores para times ingleses no verão passado.

"Existem dois modelos de negócios no futebol internacional", disse Vincent Mannaert, executivo-chefe do Club Brugge. "Nas principais ligas do topo da pirâmide, o fluxo de receita mais importante são os direitos de transmissão. Nas ligas médias e pequenas, existe outro modelo, que tem a ver principalmente com ser importante fornecedor de transferências de jogadores para as grandes ligas."

Aos olhos de Mannaert, o mercado de transferências do futebol funciona como um "mecanismo de solidariedade", transferindo o dinheiro ganho pelas competições mais populares - e particularmente a enorme riqueza disponível para os clubes ingleses - para o resto da cadeia.

"Todos fazemos parte de uma cadeia", disse ele. "Recebemos dinheiro das grandes ligas e equipes de ligas menores recebem dinheiro de nós". Quando o dinheiro para de fluir, quando a corrente quebra, o efeito se espalha da Inglaterra para a Bélgica e depois para todos os cantos do globo.

"As pessoas dizem para parar as transferências, que as quantias de dinheiro são obscenas, mas é uma fonte de renda muito importante para equipes menores", disse Mannaert. "É a única maneira de clubes de médio porte ganharem mais dinheiro investindo em academias e em jogadores. É uma forma de solidariedade."

Por enquanto, porém, o mercado de transferências está congelado. Além da Alemanha - que, apesar da ansiedade, ainda não sabe ao certo quando retomará os jogos - as principais ligas permanecem sem ter ideia de quando poderão jogar novamente. Até que elas saibam - e mesmo quando souberem, dependendo de quando isso for -, as equipes de todo o mundo devem lidar com a possibilidade de que o dinheiro do topo da cadeia pare de jorrar.

Mannaert está confiante de que o Brugge pode superar isso, reflexo de um verão lucrativo no ano passado. O Gent também permanece inflexível de que não deve ser pensado como uma escolha fácil. O mercado para David não entrou em colapso completamente: embora, em circunstâncias normais, Louwagie esperasse que de 10 a 15 clubes competissem pela contratação do jogador, agora ele espera que sejam três ou quatro. O clube ainda espera mantê-lo por mais um ano. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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