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Ugo Giorgetti
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O santo remédio

Certas coisas do futebol não consigo mesmo entender. O que acontece nos bastidores entendo até muito bem: leio com frequência o noticiário policial. Mas no campo a coisa é outra. Confesso sem nenhum pudor minha ignorância. Penso até em tentar um curso na Universidade de Liverpool, na cadeira de Ciência do Futebol, aquela mesma matéria em que é formado o ex treinador do São Paulo, Juan Carlos Osorio. Enquanto isso, vou tentando pelos meus próprios meios.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2015 | 03h00

Não entendo principalmente times que ganham e perdem com a mesma facilidade. Ganham cinco jogos seguidos, depois perdem sete jogos seguidos, depois voltam a ganhar. O que pensar disso? Tomemos, como exemplo, a simpática Ponte Preta. Começa o brasileiro muito bem, cai e fica numa posição entre derrotas e vitórias até que finalmente começa a cair muito. O que faz a diretoria? Demite Guto Ferreira. Eu faria a mesma coisa. Alguém tem que ser o culpado de coisas que não entendemos bem, como quedas constantes, seguidas e inexplicáveis. A Ponte, então, contrata Doriva, que tinha sido demitido do Vasco exatamente pelos mesmos motivos que ocasionaram a demissão de Guto Ferreira. A Ponte começa a subir de novo junto com Doriva, ele que estava um pouco esquecido em razão da pouco gloriosa demissão no Vasco da Gama. E eis que o São Paulo, outra equipe bastante oscilante e indecisa, também se livra do treinador e chama....Doriva.

Lá vai o Doriva assumir o São Paulo, deixando uma Ponte em ótima fase. Deveria ser um poderoso golpe no espírito dos jogadores e dirigentes da Macaca. Não foi. Nem sequer se falou em ingratidão ou coisa do gênero, que sempre surgem nesses momentos. A atitude de Doriva foi encarada como coisa corriqueira, pelos dirigentes, pelos torcedores, pelos jogadores, pela imprensa e pelo próprio Doriva. E de fato não aconteceu nada de novo com sua saída. Ou, se aconteceu, foi para melhor.

Vi dois jogos recentemente da Ponte. Contra o Corinthians e contra o Palmeiras. Jogou magnificamente as duas vezes. Na primeira sob o comando de Doriva, na segunda sobre o desconhecido José Moreira, auxiliar técnico e, me parece, funcionário do clube. Esteve a ponto de ganhar do Corinthians, jogando de igual para igual e, em parte do jogo, muito melhor que o adversário. Do Palmeiras ganhou, no campo adversário, contra um estádio lotado, jogando um futebol de alto nível e controlando a partida durante a maior parte do tempo. Nas duas partidas o mesmo toque de bola vertical, com personalidade, jogando bonito e não errando passes. Principalmente confiante, como se tivesse um plano de jogo do qual não se afastava. Plano concebido por quem?

O que acontece, pergunto aos formados pela Universidade de Liverpool, quando um time mantém ou muda de comportamento independentemente do treinador. José Moreira, teve alguma influencia na vitória da Ponte sobre o Palmeiras? Doriva teve alguma na formação da equipe e no empate empolgante contra o Corinthians? Não terá sido Guto Ferreira o responsável pela formação desse time atual vencedor, que está a um ponto do Palmeiras e Flamengo na classificação geral e a dois do São Paulo e do Santos?

A Ponte, com o mesmo time que despencava em direção da zona do rebaixamento, hoje luta pela Libertadores. E, vamos falar a verdade, sem treinador. Gostei muito de José Moreira em entrevista antes do jogo no Allianz Parque. Descontraído, sorridente, tranquilo, deu uma entrevista leve quase como se estivesse ali mais como torcedor e amigo dos jogadores do que como técnico. Vai ver é isso. A dança dos treinadores nesse brasileiro dá muito o que pensar sobre a perigosa e muitas vezes enigmática função de treinador. O que são eles? Que milagre operam, ou que desgraça trazem consigo, em cada time que passam? Não sei. Só sei que mudar de treinador é , como diziam nossas avós, um santo remédio.

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