O sergipano que escapou da morte na tragédia de Porto Said

Invasão no campo em fevereiro do ano passado deixou 74 mortos: Fábio Júnior dos Santos nada sofreu

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 08h35

SÃO PAULO - O atacante sergipano Fábio Junior dos Santos viu de perto a maior tragédia da história do futebol egípcio. De perto, não. De dentro. Jogador do Al Ahly em 2012, ele estava no jogo em que morreram 74 torcedores num confronto gigantesco que teve cenas brutais no Estádio Porto Said, nordeste do Egito. Quase dois anos depois, ainda sonha com a tragédia, dormindo ou acordado. "Às vezes tenho pesadelo com o que aconteceu. E quando estou acordado, fico parado pensando como consegui sobreviver", diz o atacante, que encerrou a carreira e hoje mora em sua terra natal.

O trauma se justifica. Para comemorar a vitória por 3 a 1 do anfitrião Al Masry, milhares de torcedores invadiram o gramado. Armados com pedras, paus e facas transformaram a euforia em ódio. Testemunhas relatam que viram torcedores sendo esfaqueados e outros sufocados até a morte na tentativa de fugir dos agressores. Além dos 74 mortos, foram feridas 248 pessoas. "Se os torcedores fossem agredir os jogadores, nós teríamos morrido. Nossa única arma eram as chuteiras", conta Fábio Junior – que marcou o gol do Alhy no jogo e viu vários torcedores agonizando no vestiário onde os jogadores se protegiam.

Por causa dos confrontos, 21 torcedores do Masry foram condenados à morte, cinco cumprirão prisão perpétua e seis enfrentarão penas de até 15 anos na prisão. Os outros 28 acusados foram absolvidos. A polícia também foi responsabilizada pela tragédia por ter permitido o confronto que, segundo especialistas, teve motivações políticas. Essam Samek, responsável pela segurança do estádio, foi condenado a 15 anos de prisão.

Inconformados com a sentença de morte dos torcedores do clube local, milhares de pessoas foram às ruas e causaram violentos confrontos com a polícia. Denunciando a truculência do policiais do então presidente Mohamed Morsi, os habitantes de Porto Said lançaram uma campanha de desobediência civil.

MANIFESTAÇÕES

A mobilização inspirou outras cidades, e vários locais foram o palco de manifestações hostis contra o ex-presidente, que era acusado de tomar o poder e não cuidar dos problemas sócias e econômicos do país. Depois da tragédia, Fábio Junior ainda voltou a jogar no Egito por mais seis meses. "Eu quis jogar para mostrar que era homem e tinha coragem."

No mês de outubro, insatisfeito com a substituição do treinador Manuel José de Jesus, o atacante conseguiu rescindir amigavelmente seu contrato. "No dia em que cheguei ao Brasil, senti como se tivesse saído de um pesadelo. Não volto nunca mais. Acho que o futebol não tem mais chance lá."

EGITO NA COPA

Apesar do caos político que impede os campeonatos nacionais, a seleção egípcia foi a única a fazer uma campanha perfeita e somar 15 pontos em cinco jogos da fase de grupos das Eliminatórias Africanas. Depois de garantir a primeira posição do Grupo G (Guiné, Zimbábue e Moçambique) com uma rodada de antecedência, o time é favorito para a fase mata-mata contra Guiné, confronto que define uma das cinco vagas africanas para a Copa de 2014.

Como preparação para o time campeão de três das cinco últimas edições da Copa Africana de Nações. O técnico norte-americano Bob Bradley realizou uma série de amistosos para manter os jogadores em forma nos intervalos entre os jogos das Eliminatórias da África.

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