Imagem Marília Ruiz
Colunista
Marília Ruiz
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O supervalorizado Tite

Quem diz isso é o próprio técnico, que rechaça o oba-oba

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 03h00

A farta bibliografia de autoajuda pode dar mil caminhos e receitas para manter o sucesso de um profissional. É quase letra-comum citar a manutenção desse status como o “Santo Graal” da era da meritocracia. Bons líderes seriam, grosso modo, bons gestores.

Usando os ensinamentos de Sun Tzu, passando pelos de Maquiavel, Daniel Goleman, Augusto Cury e até os dos professores Pep Guardiola e Phil Jackson, gestores de bancos, empresas familiares e times de futebol têm feito adaptações livres de tratados filosóficos para fazer seus subordinados renderem mais e mais.

Dá certo? Obviamente que não sempre. Mas, quando dá, temos um novo profeta. É o caso de Tite.

Há um ano na seleção, podemos dizer que ele deu certo. Nove jogos, nove vitórias, torcida encantada, críticas doces e adversários deslumbrados. Tite aparece nas manchetes do mundo inteiro como o grande achado do futebol brasileiro. Ele é citado até em pesquisas de intenção de voto para presidência. Tite redescobriu o elo perdido do nosso futebol “tra-ba-lhan-do”. Depois de derrotas seguidas dentro e fora de campo, a seleção, sob a batuta dele, já sabe que está no Mundial de 2018 com “me-re-ci-men-to”. E agora?

Agora não é preciso de muita autoajuda para saber que o trabalho ficará bem mais difícil. Como manter o sucesso em banho-maria até o ano que vem?

Sem a rotina de jogos oficiais e com poucas datas-Fifa, Tite terá raras chances de reunir os seus 23 preferidos para a Rússia-2018. É a hora dos testes, como o de sexta-feira contra a Argentina e o da semana que vem diante da Austrália. Sem a Copa das Confederações, o treinador vai ter de apostar na sua rotina de troca de mensagens, vídeos, conversas e encontros com seus jogadores para conservar o pique demonstrado até aqui. O próprio Tite já disse que gostaria que a Copa do Mundo fosse “amanhã”, justamente referindo-se à dificuldade de manter o desempenho 100%, a aplicação dos atletas e a confiança que hoje se tem.

Tite sabe disso muito melhor do que ninguém. Diferentemente do que o título dessa coluna faz crer, eu não acho Tite supervalorizado. Ele é que rechaça a fama, o oba-oba, a personalização do sucesso. “Há uma supervalorização do técnico no Brasil. Somos supervalorizados. Não me ilude o fato de estarmos classificados, termos vencido as nove partidas. Ficam falando: ‘ele é o cara.’ Não sou! É um conjunto”, diz o treinador. Não à toa um dos livros de cabeceira de Tite, admirador da autoajuda aplicada ao futebol, é o “Cestas Sagradas”, de Hugh Delehanty e Phil Jackson, técnico muitas vezes campeão pelo Chicago Bulls. Resumidamente, Jackson propôs uma mistura de princípios espirituais (que seriam o não egoísmo) associados a um triângulo ofensivo para virar lenda na NBA. Bem, Philippe Coutinho, Neymar e Gabriel Jesus Tite já tem...

JOGO É JOGO

Goleiro da seleção brasileira é posição indefinida

Apesar das atuações regulares de Alisson, o reserva da Roma já ouviu de Tite que precisa jogar (e não mais apenas esquentar o banco) para estar na Copa do Mundo. Weverton (escalado contra a Argentina), Ederson e Diego Alves estão em (bem) melhores fases.

NOVO TANGO

Jorge Sampaoli faz sua estreia no comando da Argentina

Com o craque Lionel Messi em campo, o técnico, que bancou a própria multa rescisória com o Sevilla para poder realizar seu sonho, estreia amanhã no comando dos hermanos. Na coletiva de apresentação, em vez de autoajuda, Sampaoli declamou uma poesia dos Pampas argentinos que diz “como é lindo estar perto do que você admira de longe”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.