Rafael Marchante/REUTERS
Rafael Marchante/REUTERS

O sussurro de Müller: como um toque pessoal ressuscitou o Bayern de Munique

Técnico Hansi Flick conhecia o meia da seleção alemã e hoje sonha em conquistar a Liga dos Campeões da Europa

Rory Smith, The New York Times

18 de agosto de 2020 | 10h00

No dia anterior ao jogo mais importante de sua vida, Per Mertesacker foi chamado a uma sala no tranquilo centro de treinamento alemão na costa brasileira, a algumas horas da cidade de Porto Seguro, e lhe informaram que ele não iria jogar. Joachim Löw, o técnico da seleção nacional, explicou friamente que faria algumas mudanças para a partida da Alemanha contra a França pelas quartas de final. Embora Mertesacker estivesse entre os jogadores mais experientes do time e tivesse jogado todos os minutos da Copa do Mundo de 2014, ele era uma das mudanças. Jérôme Boateng iria para o centro e Philipp Lahm voltaria à lateral direita.

Nesse ponto, Mertesacker – sensato, amável e compreensivo, um dos jogadores mais inteligentes com que Löw poderia contar na equipe – admite que ficou com o “ego um pouco ferido”. “Fiquei em choque, só pensando: ‘achei que esses caras confiavam em mim’. E comecei a perguntar: ‘e isso? E aquilo?’”.

Foi nesse ponto que Löw parou de falar, virou-se para seu assistente e deixou que Hansi Flick assumisse o comando. Flick sempre sabia exatamente o que dizer. Olhando de fora, o impacto que Flick provocou desde que assumiu o comando do Bayern de Munique em novembro, após a demissão de Niko Kovac, é da ordem do milagre. Sem dúvida, o massacre do Barcelona por 8 a 2 na noite de sexta-feira, símbolo de seu apogeu (por enquanto), pareceu chegar com um toque divino.

Sob Kovac, o Bayern estava afundando. Um ar de fin de siècle se instalara no clube. O elenco fervilhava de inquietação, e seus executivos temiam que houvesse chegado a hora de dispensar as estrelas decadentes, figuras icônicas como Manuel Neuer e Thomas Müller.

Eles viam Flick como um tapa-buraco. Ele havia jogado pelo clube na década de 1980 – como um meio-campista “agressivo, duro e aplicado”, de acordo com seu ex-companheiro de equipe, Olaf Thon – e entendia a “cultura” do Bayern, como explicou o futuro presidente-executivo do time, Oliver Kahn.

Desde sua aposentadoria, ele construiu um currículo de treinador impressionante e uma reputação discretamente elevada, especialmente durante seus oito anos como assistente de Löw na seleção alemã. Na verdade, o Bayern o havia nomeado no verão de 2019 em parte porque o clube sentia que ele poderia assumir caso fosse necessário demitir Kovac.

Mas não era para ser uma solução de longo prazo. Flick tinha 54 anos quando voltou ao Bayern e não comandava uma equipe havia 14. E, mesmo assim, sua experiência se restringia às camadas mais baixas da Alemanha: ele havia deixado o Hoffenheim em 2005, depois de não conseguir acesso à segunda divisão.

Quando Flick foi nomeado assistente de Löw, admitiu Mertesacker, os jogadores ficaram um pouco céticos. “Hesitação, eu diria”, disse ele. “Claro que ele tinha sido jogador, mas a gente ficou esperando para ver o que ele poderia fazer”. Para o Bayern, que compartilhava algumas das mesmas reservas, Flick estava lá para manter o assento quentinho, não para ocupá-lo.

Mas, poucas semanas depois, já estava óbvio que o Bayern não precisava se preocupar com as demandas salariais de Mauricio Pochettino, nem com o esforço para convencer Julian Nagelsmann a sair do RB Leipzig. Flick encerraria a temporada com um time revitalizado, um recorde de vitórias que supera o de Pep Guardiola – 33 jogos disputados, 30 vitórias, mais um título da Bundesliga e uma Copa da Alemanha.

Flick assumiu quando parecia que o Bayern já não era uma força na Europa. Na sexta-feira, ele produziu o que certamente é o resultado mais impressionante da temporada, com um desempenho tão devastador que pode ter levado o Barcelona ao fim de uma era. A transformação, entre aquela época e agora, entre aquela equipe e esta, é notável.

Mas as pessoas que conhecem Flick de perto – pessoas que, a exemplo de Thon, jogaram com ele ou que, a exemplo de Mertesacker, trabalharam com ele – não parecem muito surpresas. Para essas pessoas, ele não descobriu nenhum grande mistério, nenhum feitiço secreto, nenhuma reviravolta tática revolucionária.

Em vez disso, elas dizem que a grande força de Flick foi o que fez Löw recorrer a ele naquela sala no Brasil e lhe pedir que ajudasse Mertesacker a entender sua decisão. “Ele é muito humilde. Tem um sentido muito humano, uma verdadeira competência social”, disse Mertesacker. “Ele se interessa de verdade por você enquanto pessoa. E não tem medo de mostrar sua própria vulnerabilidade. E isso é contagioso”.

Naquele dia de 2014, enquanto Mertesacker tentava lidar com sua decepção, Flick o tranquilizou, acalmou suas dúvidas e lhe disse que as coisas poderiam mudar de novo para a semifinal. Ele enfatizou que o mais importante era o bem da equipe. “Ele é um comunicador fantástico”, disse Mertesacker.

É a mesma experiência de Arne Friedrich – jogador da seleção da Alemanha nos campeonatos europeus de 2008 e na Copa do Mundo de 2010. “Ele é muito aberto, muito sincero, mesmo quando se trata de opiniões críticas”, disse Friedrich, agora diretor esportivo do Hertha Berlin. “E convive com os jogadores. Não é apenas ‘trabalho, trabalho, trabalho’. É muito autêntico. E essa é a força mais importante que um treinador pode ter”.

Kahn – membro do conselho do Bayern – coloca a questão de forma mais sucinta. “Ele sempre sabe o que tem a dizer aos jogadores, especialmente nos momentos difíceis”, disse ele. “Ele sabe como lidar com os jogadores”.

Talvez seja a habilidade mais fundamental que qualquer treinador de um clube como o Bayern possa ter. A equipe está repleta de estrelas de alto nível e altos salários. Embora tenha diminuído aquela reputação de “Hollywood Futebol Clube” – um lugar que nunca passou mais de um ou dois dias sem algum tipo de conflito público ou possível motim – uma parte substancial do trabalho de um treinador do Bayern ainda é gerenciar a frágil política do vestiário.

É um papel em que Flick se destaca. Mertesacker credita a ele não apenas o estabelecimento de linhas de comunicação entre os jogadores, a comissão técnica e o resto da equipe técnica – “para que todos que precisassem da informação tivessem a informação” – mas também o espírito de equipe que levou a Alemanha à vitória na Copa do Mundo de 2014.

Em parte, isto talvez se deva às relações que Flick tem com muitos de seus jogadores. “Ele conhece Neuer e Müller da seleção nacional”, disse Kahn. Outros, como Joshua Kimmich e Serge Gnabry, são próximos desde sua época como diretor técnico da Federação Alemã de Futebol. Ele tem muita facilidade na construção de pontes.

Isto não quer dizer que Flick não tenha mudado nada no estilo do Bayern. A abordagem de Kovac era reativa: ele passava as sessões de treino preparando seu esquadrão de indivíduos altamente talentosos para as funções defensivas, o que gerava um clima de frustração.

A ênfase de Flick, em vez disso, está no que eles podem fazer com a bola, o que encoraja os jogadores a pensar mais nas maneiras como aplicar seus talentos. A estratégia, no mínimo, melhorou o ritmo de trabalho do Bayern – nas cinco principais ligas europeias, apenas o Liverpool joga pressionando mais – e serviu para restaurar o brilho de jogadores como Müller.

Em Munique corre a crença genuína de que Lisboa ainda possa representar o ponto mais alto dessa trajetória. Para um comunicador tão entusiasmado, a carreira de Flick tem sido bem silenciosa. Ele passou a maior parte do tempo longe dos holofotes, como auxiliar e assistente. Mertesacker, por exemplo, nunca teve a impressão de que ele estava especialmente interessado em ser “o protagonista”.

Agora, porém, ele está a dois jogos do brilho mais luminoso que o futebol pode proporcionar, dois jogos do tipo de conquista que não deixa qualquer dúvida. Thon tem toda a certeza de que sua hora chegou.

“O Bayern tem qualidade”, afirmou. “Eles vão ganhar a Champions League e ele vai ser visto como um grande treinador”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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