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Ugo Giorgetti
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O time ideal

É impensável que um time jogue mais à vontade fora do que diante de sua torcida

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2018 | 04h00

Na última quinta o Palmeiras conseguiu uma grande vitória não só sobre o Colo-Colo, mas sobre si mesmo. Custei para reconhecer o time. Pensava até estar vendo algum VT antigo, de esquadrões desaparecidos. O que parecia tão diferente se os jogadores eram praticamente os mesmos das últimas partidas? O que havia de diferente nesse time que se exibia no Chile era a calma, a segurança, a incrível confiança em si mesmo, estava à vontade.

A marcação era rigorosa e dura, como Felipão exige, mas não havia nem violência, nem pontapés inúteis, nem provocações infantis ou entradas tresloucadas. Todo mundo jogava como se tivesse tirado um pesado fardo das costas. Jogadores como Dudu, que em outros jogos exibia um estado de nervos preocupante, reclamando com juízes e tentando cavar faltas a todo momento, jogava leve e solto. Isso tudo num estádio lotado, cujo entusiasmo foi devidamente amansado logo aos três minutos, não com jogada fruto de trombadas alucinantes, mas sofisticada, com vários toques de classe, um deles acabando na rede chilena.

O que teria havido? A quem atribuir a responsabilidade por tal atitude, exatamente quando se esperava o contrário, isto é, um time nervoso, acuado por fantasmas do passado como Valdivia e Lucas Barrios? Um time que pelo retrospecto, inclusive nessa mesma competição, deveria jogar pesado, entrar em todas as divididas da maneira mais imprudente possível, arriscando receber cartões de todas as cores, convidando o jogo a ser tornar uma batalha campal em vez de futebol. Quer dizer, instando a partida a ser jogada como uma verdadeira partida de Libertadores, segundo alguns que não acreditam no futebol, mas na truculência.

Fiquei feliz em ver Valdivia desfilando seu vistoso futebol sem ser agredido. Fiquei feliz com o meio de campo que o marcava, Thiago Santos, Bruno e Moisés, que, astutamente, o fizeram correr muito para que se cansasse e com seu cansaço o Colo-Colo acabasse. A inteligência se sobrepôs à burrice. Os líderes do time, os que devem ser tomados como exemplo pelos mais jovens, foram, por uma vez talvez, gente que não se abala nunca. Como Edu Dracena, que ostenta seus inúmeros títulos nacionais e internacionais ganhos sempre jogando bola, com o mesmo olhar de confiança no seu futebol e apenas nele. No fim a técnica sobressaiu à pancada, à garra e às trombadas que os grandes times do Palmeiras jamais tiveram em toda sua gloriosa história, feita por jogadores que cuidavam da bola com classe e deixavam o vigor e a “garra” para os adversários.

No fim se provou que a Libertadores é competição como as outras; é, no fundo, o que os jogadores fazem dela. Podem fazer grandes jogos ou jogos lamentáveis. O jogo contra o Colo-Colo não foi um chá das cinco na Academia Brasileira de Letras, ao contrário. Foi duro, pegado, sem tréguas e sem tirar o pé de divididas, mas foi futebol e só no fim da partida, com tudo decidido, um jogador foi expulso. E não foi do Palmeiras.

É algo que a torcida deveria prestar atenção, principalmente essa parte da torcida que tem como pagar os ingressos da arena e que, portanto, é a parte que pode ir aos jogos. É ela que tem de dizer o que quer. Prestigiar as pancadas e a liderança de discurso pronto, ou fazer justiça à classe, silenciosa e eficiente. É impensável que um time jogue mais à vontade fora, num estádio hostil, do que diante de sua própria torcida, mas as estatísticas estão aí para confirmar. Só a torcida pode mudar isso. É só ela olhar ao seu redor, para as bandeiras que leva ao estádio com os rostos dos antigos ídolos estampados. É hora de comparar e saber mudar. Para mim, a equipe que jogou contra o Colo-Colo é a equipe ideal do Palmeiras.

 

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