Bernat Armangue / AP
Bernat Armangue / AP

O único troféu que ainda importa ao Real Madrid pode escapar de suas mãos

A história de sucesso na Liga dos Campeões é parte da tessitura do clube. Nenhum time ganhou mais troféus, mas os rivais continuam aumentando o preço do sucesso

Rory Smith, The New York Times

30 de abril de 2021 | 05h01

O time do Real Madrid conhece esse caminho. A primeira parada é na Catedral de Almudena, sede episcopal da diocese de Madri. Depois, na Porta do Sol, no centro da capital espanhola, antes de uma recepção no Palácio das Comunicações, que abriga a Câmara dos Vereadores. Com o fim das formalidades, chega a vez da Fonte de Cibeles, a praça onde o time sempre celebra suas vitórias.

Esse caminho virou clichê. "É uma rotina", como definiu o capitão do Real Madrid, Sergio Ramos, em 2018. O time o percorreu 13 vezes; grande parte da atual equipe percorreu quatro vezes desde 2014.

Percorreu com tanta frequência que regras foram criadas. Os jogadores foram proibidos de escalar a estátua de Cibele em sua carruagem puxada por leões, que fica no centro da praça, após um de seus antecessores, exaltado além da conta, conseguir quebrar um braço da deusa. Em vez disso, somente um jogador é autorizado a colocar o cachecol do time, delicadamente, em volta do pescoço dela. O Real Madrid sabe o que fazer, aonde ir e como se comportar quando vence a Liga dos Campeões.

Nenhum dos três times ainda capazes de impedir o Real Madrid de conquistar seu 14.º campeonato este ano se equipara na quantidade de troféus conquistados na liga. O Manchester City e Paris Saint-Germain conseguiram chegar às semifinais duas vezes. O Chelsea, que joga por um empate sem gols na próxima quarta-feira para eliminar o time espanhol no jogo de volta após o 1 a 1 na ida, pelo menos venceu o campeonato uma vez, em 2012, mas um precedente não se equipara a uma tradição. O Chelsea teria de seguir um mapa para alçar um próximo voo. O Real Madrid é capaz de fazer a jornada no piloto automático.

Este palco, então, pertence ao Real Madrid. Sob um aspecto, o time treinado por Zinedine Zidane deveria ser o último entre os quatro competidores remanescentes a ganhar o mais importante troféu do futebol europeu. O Manchester City continua livre e desimpedido na direção do topo da Premier League, próximo do terceiro título em quatro anos, sob a batuta de Pep Guardiola, o melhor técnico de sua geração.

O PSG conta com a propulsão não somente do jogador mais caro da história, mas também de Mbappé, o jogador de 22 anos que ditará o padrão da nova geração do futebol. O Chelsea, ressuscitado pelo técnico alemão Thomas Tuchel, ganhou o reforço de um talento de US$ 250 milhões no último verão - no meio de uma pandemia - e agora admite tomar gols somente de times administrados por Sam Allardyce.

O Real Madrid, por outro lado, tem sido atormentado por contusões. O jogador contratado para espalhar magia no clube, Eden Hazard, quase não jogou nos dois anos em que atua no time. A equipe não conseguiu chegar às quartas de final dessa competição em 2019 e 2020 - e ficou a um triz da eliminação na fase de grupos este ano.

A forma de jogar do Real Madrid tem sido inconstante. Em uma semana, o time ganhou partidas do Barcelona e do Liverpool, mas registrou empates sem gols em jogos contra o Getafe e o Real Betis. A equipe não conseguiu fazer nem o que sabe fazer melhor: tirar vantagem no nervosismo de seu vizinho e rival Atlético Madrid.

Mas este é precisamente o ponto em que a história do Real se torna uma força em atividade, em vez de mero elemento de cena. Todos os troféus da Liga dos Campeões que conquistou estão em exibição no museu do clube. Duas vezes nos anos recentes o time foi obrigado a ampliar o estande envidraçado em que eles são exibidos. Nenhum outro time tem esse problema. Nenhum outro time se sente tão à vontade na Liga dos Campeões quanto o Real Madrid.

É estranho, então, que apenas há uma semana, o presidente do clube, Florentino Pérez, estava empenhado em destruí-la. O projeto da Superliga, que ele passou três anos desenvolvendo - e consideravelmente mais tempo concebendo - podia ter a intenção de "salvar o futebol", como ele colocou, mas poderia ter feito nada mais do que diminuir a Liga dos Campeões, o campeonato que cumpre um papel tão central na identidade de seu clube.

Ele ficou, talvez como seria de se esperar, um pouco agitado quando foi questionado a respeito disso em uma das mal calculadas e, de maneira significativa, solitárias aparições na TV para defender a Superliga.

Uma vitória do Real Madrid no primeiro campeonato da Superliga - nunca houve dúvida de que o Real Madrid ganharia a Superliga, segundo essa narrativa - seria a primeira vitória do clube na competição? Ou seria sua 14.ª vitória na Liga Europa? "Poderia ter sido a 15.ª", respondeu ele. "A 14.ª pode vir nesta temporada."

Pérez teve de ser evasivo para conseguir se afastar do assunto. Ele preza as vitórias na Liga dos Campeões mais do que qualquer outra conquista; trata-se de um troféu que, em sua visão, lhe dá todas as justificativas e todas as respostas que ele sempre precisou; mesmo quando ele inventou a Superliga, ele deveria saber que diminuir a Liga dos Campeões diminuiria, indiretamente, a história do Madrid e a dele.

A razão pela qual ele pretendia fazer isso pode, em parte, ser depreendida da contabilidade do Real Madrid. O clube está afundado em dívidas, atrasando salários - outra promessa de pagamento semestral de jogadores vence em 30 de junho - e paralisado pelos custos das reformas em seu estádio, o Bernabéu. Há um empréstimo a ser pago para o Providence, um fundo de hedge americano. E taxas de transferências de jogadores pendentes. Colocado de maneira simples, o Real Madrid precisa de dinheiro.

Mas a lógica de Pérez pode ser encontrada também na identidade dos times que esperam tomar do Real Madrid o troféu da Liga dos Campeões, em Istambul, no próximo mês: o Chelsea garantido pela fortuna de um bilionário russo, Roman Abramovich; o Manchester City elevado a competidor pelos seus financiadores estatais de Abu Dhabi; o Paris Saint-Germain, time que comprou Neymar, financiado pelo Catar.

Essa é nova ordem mundial que Pérez há muito temia se materializando. Ele sabe que o Real Madrid não consegue competir, em termos de recursos, com esses times, não importa quantas vezes o governo espanhol concordar em comprar seus campos de treinamento. Afinal, o time não possui assim tantos campos de treinamento para vender e, além disso, num mundo em que o PSG consegue pagar US$ 258 milhões por Neymar - uma quantia paga, em alguma medida, com o objetivo específico de distorcer o mercado de transferências de jogadores - mesmo isso pode não ser suficiente.

É muito difícil se compadecer. "Eles têm de controlar custos, não aumentar o lucro", afirmou na semana passada Javier Tebas, presidente da liga espanhola. Foi uma consideração sensata; se o Real Madrid, como o Barcelona, não consegue pagar os salários ou as taxas de transferências dos astros em ascensão na Europa, os times deveriam apertar o cinto de acordo com a situação.

Ambos os clubes desperdiçaram centenas de milhões de euros em contratos equivocados e salários inflados; nenhum deles tem o tipo de visão coerente para seu futuro como o  Manchester City, por assim dizer, cuidadosamente (e de maneira onerosa) construiu. Os times são, em grande parte, culpados por suas próprias crises. Eles poderiam recomeçar, apostar em jogadores jovens, administrar suas contas de maneira mais sustentável e ainda assim aproveitar as vantagens oferecidas por sua receita.

Mas no Real Madrid, isso é mais fácil dizer do que fazer. Não se trata de um clube que aceita o segundo lugar. Pérez sabe que a manutenção da popularidade de sua presidência depende de sua habilidade de entregar "um time totalmente glorioso", conforme ele afirmou após o Real Madrid conquistar seu 13.º troféu da Liga dos Campeões, três anos atrás.

Trata-se de um clube, em vez disso, que conhece de cor a rota de celebração de suas conquistas e que espera percorrer esse caminho todos os anos. Há anos, o Real Madrid se sente dono da Liga dos Campeões e mesmo assim, está derrapando para fora do percurso que lhe é familiar, que se torna mais árduo a cada ano que passa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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