Paulo Liebert/Estadão
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O valor das cinematecas

Transmissão dos jogos da Copa de 1962 ajuda a demonstrar importância da preservação de imagens históricas

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2020 | 05h00

O canal SporTV está mostrando antigas Copas do Mundo jogadas pelo Brasil. Tive a enorme surpresa de ver praticamente inteiro o jogo Brasil x Inglaterra, de 1962. Pude ver o que já não lembrava, o que era apenas uma vaga ideia na minha memória cansada. O Brasil ganhou por 3 a 1 de uma Inglaterra que era um excelente time e deu muito trabalho. Vi Garrincha num dia de glória, Didi e sua elegante liderança solitária, vi Djalma Santos e, sobretudo, confirmei o que sempre pensei de Zagallo, um craque, um jogador para especialistas. Enfim, era o Brasil que todos conhecemos. Uns de ouvir falar; outros, como eu, que de alguma maneira acompanhavam como podiam aquela partida.

Mas, devo acrescentar, minha surpresa maior foi a qualidade das imagens. Acostumado a imagens de cinema, sou capaz de avaliar o tratamento que foi, ou é, dado a elas. Essas imagens que vi do jogo de 62 eram magníficas. Nem vou entrar na questão de saber se foram restauradas, quando foram restauradas ou quem as restaurou. Ou, talvez, quem as conservou. O restauro só entra quando as imagens são malconservadas ou sofreram os percalços da história ou da ignorância. O que ficou em minha mente é que as imagens em branco e preto nítido, sem chuviscos medonhos, sem rasuras, descrevendo o jogo quase com delicadeza, tinham sido produzidas em algum pais civilizado.

Poderia ser até mesmo o Brasil. Poderia ter sido realizado aqui na nossa Cinemateca Brasileira. Até há poucos anos a Cinemateca Brasileira estava capacitada a tratar imagens com o mesmo nível que exigem os países civilizados. Era um laboratório que coligava o nosso passado com o nosso futuro, ciente de que o presente é só um instante fugaz que conecta os dois.

Essa transmissão de Copas com jogos completos, com sua qualidade de imagem, mostra a qualquer um que queira ver o que é uma Cinemateca. Não é um lugar destinado a conservar filmes, mas imagens. Às vezes as imagens não são de filmes de ficção, mas, como as da Copa de 1962, são imagens esportivas. Poderiam ser imagens de outro momento do nosso cotidiano e estariam cumprindo a função primeira de uma Cinemateca. Não é, portanto, para salvar apenas filmes brasileiros, os odiados filmes brasileiros, que teimam em não desaparecer, para desespero dessa gente que não sabe do que fala. É para que todos, até para essa horda de bárbaros que odeiam cultura, mas vestem camisetas da seleção, vejam um jogo importante do passado.

Talvez o que seja uma Cinemateca fique mais fácil de compreender com esse exemplo de Brasil x Inglaterra de 1962. Sem Cinemateca, continuando com o exemplo que me ocupa, não seria possível ver de novo aqueles grandes craques que nos comoveram. O jogo que vi era um jogo de mortos. Só Zagallo, de todo o time do Brasil que estava em campo, ainda está entre nós.

No entanto, no momento da transmissão eles ressuscitaram, voltaram à vida e mostraram sua arte. Esse momento que atravessamos de treva espessa, de ignorância triunfante, de mediocridade triste, talvez com o auxilio do futebol faça até os mais tapados compreenderem o que é uma Cinemateca.

A nossa está destruída, acabada e paralisada. Esteve, repito, até pouco tempo, no mesmo nível de cinematecas como as de Barcelona ou Bolonha. Hoje está em pedaços.

Antes que alguém aponte esse governo inominável que aí está como único responsável por isso, é preciso fazer uma ressalva. Não foi o governo Bolsonaro que iniciou o desmonte da Cinemateca Brasileira. Ele começa em 2013. O governo Bolsonaro se limita a dar prosseguimento alegremente ao que foi iniciado muito tempo atrás, durante horrorosos governos, progressistas e liberais.

Quando alguém se deparar com um jogo ou um evento do passado, cujas imagens emocionam, entusiasmam e nos reconciliam com o nosso país, lembre-se da Cinemateca Brasileira.

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