O Velho Lobo está de volta ao trabalho

Dois meses depois de complexa operação no aparelho digestivo, Mário Jorge Lobo Zagallo, 74 anos, coordenador-técnico da seleção brasileira, está de volta. E, com o otimismo de sempre, prevê novo título mundial para o Brasil. "O número da sorte do Parreira é o 7. Você soma com o hexa e dá 13, que é o meu número. Não vai dar outra", diz. Agência Estado - Como o senhor se sente após a operação? Zagallo - Ainda não estou 100%, mas já estou trabalhando. Participo de reuniões diárias na CBF. São um pouco cansativas, porque me sinto debilitado. Perdi dez quilos de peso. Vou levar uns seis meses para recuperar quatro ou cinco quilos, é muito lento. A minha fome, que nunca foi muito grande, diminuiu bastante. AE - Como foi a operação? Zagallo - Retirei vesícula, parte do duodeno, parte do pâncreas e parte do estômago. Na verdade, refiz meu aparelho digestivo. Nesse aspecto, estou novo? AE - Qual foi o motivo da operação? Zagallo - Durou seis horas. A causa era um tumor que tinha no duodeno. Pelo menos, o tumor não era maligno. Se fosse, agora estaria fazendo quimioterapia, parece que é coisa terrível. AE - Como o senhor encarou a operação? Zagallo - Tranqüilo, apesar de que havia desconfiança que era câncer. Não tinha muito o que fazer. Tem que operar, opera logo, só podia falar isso. Tinha pressa também porque queria participar da Copa das Confederações, mas não deu certo. Não vi a vitória sobre a Argentina, só na televisão. AE - O que achou? Zagallo - Inquestionável. Os argentinos deram azar. Eles ganharam da gente por 3 a 1 e 15 dias depois, teve outro jogo e levaram de 4 a 1. Agora, vai demorar para jogarmos de novo e a vantagem vai ficar com a gente. Azar deles. E, naquele jogo dos 3 a 1, eles fizeram três ataques e marcaram três gols. Foi sorte demais. AE - O que o senhor acha do futebol argentino? Zagallo - Muito bom, muito técnico. É o segundo melhor do mundo. AE - Qual a diferença deles para nós? Zagallo - Nós somos pentas e eles ganharam duas vezes. A diferença é essa, está de bom tamanho. AE - O grupo que vai para a Copa está fechado? Zagallo - Não, sempre se pode conseguir uma vaga, mas cada vez fica mais difícil. O LuísFabiano, por exemplo, teve sua chance. Era o número um na lista, mas não aproveitou. Agora, apareceu uma "montoeira" de pontas-de-lança. Vai ter de superar o Adriano, o Ricardo Oliveira, enfrentar o Fred..... AE - O Fred é bom? Zagallo - Muito bom. Ele e o Kerlon são as revelações do Brasileiro. AE - Quem não está jogando, fica fora da seleção? Zagallo - Sim, é lógico, não é. Veja o caso do Robinho. Ele tinha de estar treinando e jogando. Precisava respeitar o contrato que fez com o Santos. Quando ele passou de 8 mil para 70 mil mensais não reclamou. E a multa aumentou. Acho que jogador não devia seguir tanto a cabeça de empresário. Precisa ter idéia própria. AE - Ele diz que tem um acordo verbal com o presidente. Zagallo - O que vale é o preto no branco, palavra não vale nada na lei. AE - Jogador que está na Europa tem prioridade na Seleção? Zagallo - Não acho isso, mas não nego que jogador brasileiro que está na Europa tem algo a mais. Ele mantém a nossa técnica que é inigualável e aprende a enfrentar a marcação dura dos europeus. Melhora taticamente, não tem dúvida. AE - O que o senhor acha da maioria dos clubes estar jogando no 3-5-2? Zagallo - Não gosto desse esquema. Quem está no 3-5-2 não pode mudar para 4-4-2 durante o jogo. E o contrário, é fácil. Você entra no 4-4-2, recua um volante e solta os laterais. Pronto, vira 3-5-2. O Scolari ganhou a Copa no 3-5-2, mas a nossa história é feita no 4-4-2. AE - O que o senhor está achando do Brasileiro? Zagallo - Está nivelado por baixo. A Ponte Preta tem muitos méritos, merece aplausos, mas o fato de estar em primeiro mostra que está nivelado por baixo. AE - Qual o motivo? Zagallo - Muita gente vai para a Europa e cai o nivel. São substituídos por veteranos e por juniores. Fica difícil manter o nível. A empresa do Corinthians precisou contratar o Mascherano e o Tevez. AE - O que o senhor acha deles? Zagallo - São bons jogadores. Prefiro o Tevez. Vou sempre agradecer o fato de ele ficar passando o pé em cima da bola no final da Copa América. Perdeu a bola, empatamos o jogo e vencemos nos pênaltis. Obrigado, Tevez. Você não sabe como o nosso futebol é forte.

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