Paulo Matheus / Fortaleza EC
Paulo Matheus / Fortaleza EC

Obras, cobranças e novas rotinas: Ceni vai moldando seu próprio Fortaleza

Em busca do primeiro título neste domingo, treinador novato tem moral no Pici e ajuda a redesenhar o futebol da equipe cearense

Matheus Lara, Enviado especial a Fortaleza

08 de abril de 2018 | 07h01

"Quem vê até parece que ele voltou e está aqui para jogar", diz o taxista Antônio Ari, torcedor do Ceará, incomodado enquanto dirige rumo ao CT Ribamar Bezerra, do Fortaleza. Ele fala de Rogério Ceni, técnico da equipe tricolor do Pici, que passou a ser quase onipresente no noticiário esportivo e nas rodas de conversa da cidade desde que assumiu o time em janeiro. “Falam dele como se fosse um parente, algo assim, é só um técnico!”

No comando do Fortaleza, Rogério Ceni busca seu primeiro título como técnico

Que a contratação teria grande repercussão imediata no ano de seu centenário o Fortaleza já sabia. Também sabia que corria um risco de imagem, de talvez ter um técnico maior que o próprio clube. Mas tudo foi calculado na ponta do lápis - e neste domingo o time vive a expectativa de obter, fora do papel, o primeiro grande trunfo de sua ousadia: um eventual título Estadual sobre o principal rival, o Ceará.

Mesmo após a derrota no primeiro jogo da final por 2 a 1, uma vitória simples no Castelão dá o título ao Fortaleza por ter tido a melhor campanha no torneio. E Ceni tem a chance de levantar seu primeiro troféu como técnico.

O clima no Pici é de que o Fortaleza passa por uma revolução. Financeira, em primeiro lugar. O efeito Ceni, aliado ao acesso à Série B do Brasileiro, fez o número de sócios-torcedores do time passar de 6 mil para 17 mil em menos de cinco meses. Se tornou a principal receita do clube que tem o baixo orçamento de R$ 22 milhões para 2018. Houve impacto também nos patrocínios: o espaço máster na camisa que antes rendia pouco mais de R$ 80 mil mensais ao Fortaleza agora estampa a marca da Caixa, que pagará R$ 200 mil por mês ao clube.

"O centenário por si só é um ano especial. E estarmos na Série B nos deu perspectiva de termos um bom crescimento. A chegada do Rogério também contou nisso", analisa o presidente do clube, Marcelo Paz. "O time passou a vender mais camisa, a ter mais sócio-torcedor, a ter mais seguidores nas redes. Voltar à Série B devolveu a auto-estima a um torcedor que é exigente."

Mudanças também acontecem na estrutura do clube. Tudo com dedo de Ceni. Rogério mantém o rigor que lhe rendeu antipatias pela experiência no comando do São Paulo. Mal chegou, e já molda o Fortaleza ao seu gosto e de acordo com suas convicções. Mas o que para alguns pode soar como arrogância, no Fortaleza foi recebido não só com bons olhos, mas com investimento. Foi de Ceni o pedido para a construção de um campo adicional para treinos na sede do clube - R$ 68 mil. Também foi ele quem pediu uma academia nova, anexa à fisioterapia - R$ 130 mil. Gastos não previstos, mas prontamente executados.

Rogério argumenta e demonstra possíveis melhoras com base em parâmetros que tem ou conhece. Pede no CT e na sede a manutenção do gramado para que fique sempre similar ao padrão da Arena Castelão, por exemplo. Vê na infraestrutura do clube uma versão mais modesta do que tinha no CT da Barra Funda, onde esteve por mais de 25 anos com o São Paulo. 

E também vem mudando a rotina do clube. Antes, o time fazia a maior parte de seus treinos na sede perto do centro da capital, no estádio Alcides Santos, mas por privacidade, pediu melhorias e otimização no uso do CT em Maracanaú, a 24 km do centro de Fortaleza, antes mais utilizado pelas categorias de base do Fortaleza. A programação dos atletas sofreu alterações. Por determinação do professor, agora todos jantam juntos antes de sair do CT.

"Antes alguns comiam aqui, outros não, mas agora é uma regra determinada pelo Rogério", conta uma das nutricionistas do clube, Laene Oliveira. "É melhor, pois assim temos o controle de que eles têm uma alimentação balanceada e adequada. Isso tem efeito em campo."

A análise de desempenho do time também se tornou mais intensa e exigente, de acordo com funcionários do clube. Ceni costuma ser o primeiro a chegar e o último a sair do CT na maior parte dos dias. Além da atividade em campo, trabalha com dados e estudos junto com o restante da comissão técnica. Chega a ligar para colegas em feriados ou dias de folga para perguntar dados e informações sobre adversários e atletas. 

Uma pedra no sapato do treinador continua sendo a imprensa. Não que a relação seja ruim. Mas o perfil reservado de Ceni chega a ser irônico levada em conta a frequêcia com que está nos holofotes. Às vezes o afastamento chega a ser literal, como foi em sua chegada. Antes, a imprensa acompanhava o treino do Fortaleza a metros do gramado; com Ceni, os jornalistas que acompanham o dia-a-dia do time “ganharam” uma sala de imprensa mais distante, de onde têm de se virar para assistir às atividades. E só os jogadores que falam coletivas passam por lá.

O elenco demonstra confiança no comando de Ceni. “Ele tem uma experiência incrível e sempre tem algo a falar”, conta o goleiro Marcelo Boeck. “Às vezes o que parece uma simples defesa só aconteceu por causa das palavras dele.”

O zagueiro Ligger talvez discordaria do taxista alvinegro do início da reportagem. Para ele, Ceni e Fortaleza já têm relação familiar. “Ele se apegou muito ao grupo. Espero que possamos dar essa alegria a ele, a conquista de seu primeiro título.”

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