GABRIELA BILÓ/ ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ ESTADÃO

Obstinada, Lauren viaja 240 km por dia para jogar no São Paulo

Capitã da equipe sub-17 mora no interior paulista e vem de moto na garupa do pai para vestir a camisa do clube

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2018 | 04h30

Todo dia começa igual para a zagueira Lauren, de 16 anos, capitã da equipe sub-17 do São Paulo: acorda às 6h30, vai para a escola e, após um rápido almoço, segue rumo ao treino, seja no Morumbi ou no Centro Olímpico, que abriga alguns treinos das meninas. Uma rotina aparentemente normal, não fosse um detalhe: ela mora em Votorantim, cidade do interior paulista. Da porta da sua casa, no Parque Jataí, até os locais de treinamento, são cerca de 120 km, ou seja, 240 km de distância para manter vivo o sonho nutrido desde pequena.

"A única situação que não é correta, mas porque não cabe na minha situação financeira, é que eu trago ela de moto, que é um risco muito grande tanto em São Paulo quanto na estrada. Esse é o meu maior medo. Se eu sofrer um tombo, a carreira dela pode estar indo embora. Mas espero que a partir de 2019 isso mude por causa do novo projeto do São Paulo que vai alojar algumas meninas. E ela está dentro dessa possibilidade", diz, esperançoso, o pai da jogadora, Erymar Costa, 41.

O projeto ao qual Erymar se refere é o novo time profissional feminino do São Paulo, que começou a ser formatado em outubro, quando 470 candidatas passaram por peneiras. A partir de 2019, todos os clubes que disputarão torneios organizados pela Conmebol – caso do São Paulo, classificado para a Libertadores – precisarão obrigatoriamente contar com equipes femininas profissionais ativas. Passou a ser regra da entidade.

A equipe sub-17 já existe desde o ano passado, quando foi feita uma parceria com o Centro Olímpico que resultou nas conquistas dos torneios equivalentes ao Paulista, Brasileiro e Libertadores da categoria. A partir deste ano, o elenco passou a ser próprio do São Paulo. 

Lauren, capitã e presença constante nas seleções de base do Brasil – esteve no Sul-Americano e no Mundial Sub-17 deste ano –, tem boas chances de ser integrada ao profissional e ganhar uma vaga no futuro alojamento, ainda sem local definido. Seria o fim de uma estafante rotina que já dura quatro anos.

"É muito desgastante. Não só a viagem para ir e voltar. Além de chegar em casa cansada do treino, ainda tenho de estudar para prova porque perco muita aula e preciso repor de alguma forma. Vou dormir muito tarde, acordo cedo. Quando chega o fim de semana, estou esgotada", admite a atleta.

Na primeira peneira, passou e nunca mais saiu

Desde pequena, Lauren já se metia a jogar com os meninos do seu bairro. Passou por escolinhas até chegar o momento no qual o pai percebeu que a brincadeira tinha virado coisa séria. Foi quando descobriu o Centro Olímpico e trouxe a filha à capital para uma peneira. Passou no primeiro dia. 

"Ela não falta a nenhum treino, nunca faltou. Se eu não posso vir, pago para um cunhado para trazê-la com o meu carro, peço para o meu irmão. Alguém traz! Mas para vir (de carro) todo dia, não dá, o custo é muito alto", explica Erymar, que, curiosamente, já estava acostumado a pegar a estrada diariamente: ele trabalha dirigindo os veículos de resgate que circulam pelas rodovias estaduais.

Três perguntas para Lauren, zagueira do São Paulo

1. Quando percebeu que o futebol não era só mais brincadeira para você?

Antes, quando eu jogava com os meninos, acho que era mais por diversão, mesmo. Depois que entrei no Centro Olímpico é que percebi que aquilo poderia me dar futuro e ser realmente minha profissão, e não somente uma brincadeira. Foram acontecendo coisas dentro do futebol que me possibilitaram disputar campeonatos, conhecer países. E hoje, sim, eu vejo como minha profissão.

2. Como é ver suas amigas curtindo a vida enquanto você rala todo dia aqui?

A gente tem de abrir mão de muita coisa para ser atleta, e uma dessas coisas é isso: sair, aproveitar com os amigos. Sempre que posso, gosto de estar com eles, por perto, mas não posso ter a mesma vida que eles, de maneira alguma. Não posso comer as mesmas coisas que eles comem, é diferente. O meu instrumento de trabalho é o meu corpo, tenho de estar bem fisicamente, tecnicamente. Então, não tenho a mesma vida que uma menina de 16 anos teria se não jogasse futebol.

3. O Brasil ainda está muito atrasado no futebol feminino?

O Brasil está atrasado, tem países bem mais desenvolvidos, mas melhorou muito desde quando eu comecei. A estrutura de campeonatos, de times, há mais times criando futebol feminino. Então, houve uma evolução, sim, que está sendo devagar, aos poucos, mas está acontecendo. Aos poucos, vamos buscando nosso espaço dentro do futebol.

 

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